A “moça de Egtved”, a vida de uma princesa da Era do Bronze reconstituída

Por ND, 13 de janeiro de 2018, referindo-se ao artigo de François Savatier (05/06/15) para http://www.pourlascience.fr/
bem como ao artigo de Brandon Keim (2017) para http://www.nationalgeographic.fr/

A moça de Egtved foi enterrada na Dinamarca há cerca de 3400 anos. Suas roupas de lã são do Sul da Alemanha

A moça de Egtved foi enterrada na Dinamarca há cerca de 3400 anos. Suas roupas de lã são do Sul da Alemanha / Roberto Fortuna - Museu Nacional da Dinamarca

A moça de Egtved reconstituída

A moça de Egtved reconstituída

Durante a Idade do Bronze, uma jovem mulher de alta patente do Sul da Alemanha viajou várias vezes entre sua terra natal e a Dinamarca.

A “moça de Egtved” é uma das mais notáveis múmias europeias. Estes são os restos de uma jovem mulher enterrada durante a Idade do Bronze na Dinamarca. O estudo rádio isotópico de seus restos e roupas revela hoje que ela provavelmente era da região da Floresta Negra na Alemanha, onde ela também ficou várias vezes durante os últimos anos de sua vida.

Com a ajuda de uma dúzia de colegas, Karin Margarita Frei, do Museu Nacional da Dinamarca, estudou de perto os restos desta mulher, descobertos em 1921 em Egtved, na Jutlândia. De 16 a 18 anos no momento da morte, a falecida era de alta patente, já porque era sob um tumulo de quase 30 metros de diâmetro que foi descoberto o seu caixão talhado em um pedaço de carvalho. A datação por dendrocronologia (pelos anéis de crescimento da árvore) prova que a moça de Egtverg foi enterrada cerca de 3.400 anos atrás, no meio da Idade do Bronze Dinamarquês (-1800 a -500).

Apesar dos milênios desde o enterro da moça de Egtved, suas roupas, seus cabelos, partes de sua pele, de seu cérebro e unhas foram preservados.

A falecida foi acompanhada na morte por uma criança de 5 a 6 anos de idade (ela não tem idade suficiente para ser a sua mãe), cujos os ossos calcinados foram embrulhados e depositados no caixão. As roupas - uma camisa de lã tecida e uma saia curta feita de cordas de lã - chegaram em perfeito estado, assim como o couro de vaca com o qual ela foi embrulhada.

A moça de Egtved usava pulseiras de bronze em cada braço e um brinco, e um cinto adornado com um belo disco de bronze, decorado com espirais e um ponto. Pelo fato que o culto solar parece ter desempenhado um papel central na religião dos camponeses da Idade do Bronze Nórdica, este disco poderia representar o Sol. Uma vez que algumas das joias da moça de Egtved não foram feitas na Jutlândia, a gente já suspeitava de que ela não era de origem nórdica. Os pesquisadores estudaram então as unhas, os cabelos e os dentes para saber mais.

A equipe de Karin Margarita Frei conseguiu deduzir inúmeras indicações do estudo radioisotópico dos restos contidos no caixão.

Ao comparar as estirpes de estrôncio na filha de Egtved com as assinaturas isotópicas de estrôncio, cada uma própria a uma localização especifica na Europa do Noroeste, foi possível determinar onde ela morava em vários pontos de sua vida.

Assim, a análise de isótopos realizada sobre um dente da jovem mulher e no occipital calcificado da criança possibilitou determinar que a filha de Egtved - e a criança - não passou a sua infância na Escandinávia. A análise isotópica realizada na saia e na camisa também indica uma origem fora da Dinamarca.

Mas qual região? A região cuja a geologia expressa melhor a diversidade de valores da relação isotópica do estrôncio da lã das roupas da moça de Egtved é a Floresta Negra. Os Vosges, do outro lado do Reno, cuja origem geológica é comum, também poderia ter sido a pátria da filha de Egtved...

De qualquer maneira, os pesquisadores fizeram uma outra descoberta incrível estudando as unhas e os cabelos. A relação isotópica do estrôncio indica claramente que ela permaneceu no Sul durante os seis meses que antecederam a morte, em um ambiente continental (enquanto a Jutlândia está cercada por mares). Além disso, o exame microscópico do cabelo trai longos momentos sem ingestão de proteína, o que poderia corresponder à dieta de uma longa viagem.

Todas essas pistas podem ser usadas para reconstruir o percurso seguinte: a moça de Egtved era parte de uma família de alta patente que permanecia regularmente no Sul, talvez perto da Floresta Negra. Ela estava voltando desse lugar quando morreu na Dinamarca.

É impossível conhecer os motivos que levaram a moça de Egtved a viajar, mas a Era do Bronze foi um momento em que as alianças entre as chefias tradicionais estavam se desenvolvendo. Frei acredita que a moça de Egtved, que tinha entre 16 e 18 anos no momento de sua morte, foi forçada a se casar com um homem para forjar tal aliança e assim promover os intercâmbios comerciais entre regiões.

Sua história é uma outra ilustração das redes de intercâmbio de longa distância que existiam entre as elites da Era do Bronze. Numa época em que todas as sociedades da Europa temperada e do Norte eram tribais e onde reinava a insegurança, a melhor maneira de garantir uma aliança estável com um correspondente distante era integrá-lo na família, dando-lhe a sua filha. Um comportamento quase universal no passado que continua ainda hoje em alguns países...

No entanto, as mulheres escandinavas daquela época às vezes tinham algum poder político, especialmente na ausência de sucessores masculinos na família, de acordo com Flemming Kaul, um especialista da Era do Bronze no Museu Nacional da Dinamarca. "É possível que as mulheres do Norte estivessem em posição, na Idade do Bronze, de conduzir negociações e estabelecer alianças, e não necessariamente através dos laços de casamento", diz Kaul.

Deste ponto de vista, a filha de Egtved teria se beneficiado de novos costumes sociais que incentivassem a generosidade em relação aos viajantes e convidados. Isso ajudaria a viabilizar viagens de longa distância e estabelecer as bases para uma economia baseada sobre os intercâmbios comerciais.

De certa forma, a filha de Egtved está se tornando cada vez mais misteriosa", diz Frei. "Ela foi encontrada há muito tempo, e ainda assim ela ainda tem muito o que nos contar".

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