O túmulo de uma rainha merovíngia do século VI em Saint-Denis

Por ND, 31 de dezembro de 2017, referindo-se ao artigo de Véronique Gallien (26 de setembro de 2017) para https://www.futura-sciences.com/,
bem como ao artigo de Christine Vève (5 de agosto de 2013) para http://www.panoramadelart.com/

Reconstituição do traje de Arégonde de acordo com a pesquisa mais recente. © Florent Vincent

Reconstituição do traje de Arégonde de acordo com a pesquisa mais recente. © Florent Vincent

Jóias da rainha Arégonde no Museu do Louvre.

Jóias da rainha Aregonda no Museu do Louvre.

Anel sigilar da rainha Aregonda - Ouro, Século VI. © Cangadoba, Wikimedia Commons, CC Attribution-Share Alike 4.0 International license.

Anel sigilar da rainha Aregonda - Ouro, Século VI. © Cangadoba, Wikimedia Commons, CC Attribution-Share Alike 4.0 International license.

Uma nova analisa sobre a descoberta em 1959 do túmulo de uma rainha merovíngia acompanhada por um luxuoso mobiliário funerário, datado de cerca de 580, na Basílica da Catedral de Saint-Denis, com todos os seus ornamentos, identificada como Arégonde, uma das esposas do rei Clotário I, nos fornece informações valiosas sobre os hábitos de vestimenta de uma rainha dessa época.

Aregunda, conhecida por um único texto de São Gregório de Tours, era uma das esposas do rei Clotário I (reinado 511-561), o último filho de Clovis, o primeiro rei dos Francos (reinado 481-511) e fundador da dinastia merovíngia. Em 539, ela deu à luz ao futuro rei Quilperico I. O bispo São Gregório de Tours conta como Aregunda se encontrou casada com Clotário, já casado com a sua irmã mais velha, Ingunda.

Esta última, tendo pedido a este para encontrar um marido digno para a sua irmã mais nova Aregunda, o rei não encontrou um melhor pretendente do que ele mesmo e decidiu se casar com a sua própria cunhada. Este casamento, certamente proscrito pelos cânones eclesiásticos, estava, no entanto, em conformidade com os princípios polígamas e endógamos, em vigor nas famílias reais germânicas. Aregunda elevou-se assim à categoria de rainha legítima e também aparece como "Regina" (ou seja, rainha, ou princesa no sentido amplo do termo) nos escritos de São Gregório de Tours, como as outras esposas de Clotário.

Tivemos que esperar até 1959 para adicionar novas peças à história de Aregunda.

Tendo retomado em 1957 as escavações de Edouard Salin, no porão da basílica de Saint-Denis, Michel Fleury, diretor de Antiguidades históricas da região parisiense, desenterrou um sarcófago contendo um enterro feminino excepcional pela qualidade de seus artefatos funerários, com a presença de joias merovíngias características e a conservação de restos orgânicos correspondentes às suas roupas.

Graças a um anel de ouro revelando o nome ARNEGVNDIS e um monograma central lido como REGINE, a falecida foi identificada com a rainha Aregunda, mencionada por São Gregório de Tours como uma das esposas de Clotário I (511-561) e a mãe de Quilperico I.

Colocado no porão da basílica de Saint-Denis, o sarcófago de Aregunda foi protegido contra infiltrações de água que poderiam ter danificado o seu conteúdo. Muitos restos orgânicos (osso, couro, tecidos) conseguiram subsistir.

Pesquisas científicas recentes forneceram novos conhecimentos sobre a rainha. As análises ósseas de Aregunda (cuja data de nascimento é desconhecida) indicam que era pequena (entre 1,50 m e 1,60 m) e fina. Aquelas de seus dentes revelam que ela teria morrido por volta de sessenta anos. O exame de seus restos também mostrou que a rainha sofria de poliomielite quando era criança e tinha mantido um pé deformado. Como adulto, ela devia ser diabética porque seus ossos mostram o espessamento característico desta doença.

Desde a segunda metade do século V, os aristocratas costumavam ser sepultados perto do túmulo de Saint-Denis para se colocar sob a proteção do santo. O primeiro rei merovíngio a fazer o mesmo é Dagoberto, em 639. Posteriormente e com os deslocamentos do centro do poder, a basílica deixou de ser uma necrópole real, para se tornar de novo oficialmente uma necrópole real sob os Capecianos do século IX, até o período de Luís XVIII no início do século XIX.

O túmulo torna possível ter uma ideia da roupa de uma rica senhora merovíngia.

Vestida com todas as suas joias, estava envolto em um longo casaco de seda com mangas bordadas de ouro e tingido de púrpura. Esta cor vermelha profunda era tradicionalmente reservada para o imperador e a sua comitiva na Antiguidade.

O terno de Aregunda é inspirado da vestimenta do Mediterrâneo e, mais precisamente, da moda bizantina. Ela usava de um longe véu de seda com padrões amarelos e vermelhos, e seus sapatos vermelhos, de estilo "babouches", eram feitos de pele de cabra. Ela usava também de joias de ouro e prata adornadas com granadas vindos da Ásia.

Porém o acessório mais espetacular deste conjunto é a importante decoração do cinto. Foi feito de uma armação em prata sólida, usando técnicas de ourivesaria que só foram propagadas no final do século sexto. A rainha deve estar entre as primeiras a se adornar com essa joia.

Aregunda usava brincos de ouro de origem ítalo-bizantina. Duas fíbulas circulares de ouro com uma armação com pedra granada fechavam o casaco. Seu longo véu foi preso por dois pinos de ouro e preso ao manto por uma longa fíbula de prata ornamentada também com pedra granada.

O vaso de vidro aos pés de Aregunda manteve os traços da mortalha que a envolveu.

As análises laboratoriais mostraram também um desgaste ou um reparo antigo de suas joias. Claramente, isso significa que eles haviam sido usados muito tempo e que a velha rainha, enterrada por seu filho Quilperico, queria descansar com os objetos de adorno que lhe eram preciosos.

Em qualquer caso, suas joias dão um bom vislumbre do luxo que reina na corte de Paris quando ela morre, entre 574 e 580, nos últimos anos do reinado de seu filho Quilperico I. Esta pequena mulher, que pode ter morrido aos 60, parece ter vivido bastante bem, de acordo com os antropólogos. Como uma rainha digna, Aregunda deixou este mundo com grande pompa como era a costume dos Merovíngios.

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