1257 ou 1453, 'anos sombrios': até onde podem ir os desastres naturais?

Tradução de Nicolas Drouvot, 13 de setembro de 2018, referindo-se à noticia de actuelmoyenage (7/12/17) no site https://actuelmoyenage.wordpress.com

'O triunfo da morte', de Pieter Brueghel, o Velho, 1562

Trojans Land Near Mount Etna; Beneath Lies the Giant Enceladus (Aeneid, Book III). Artist: Master of the Aeneid (active ca. 1530–40). Date: ca. 1530–35 .

'O vulcão Samalas, na Indonésia, na origem de uma pequena idade do gelo

O vulcão Samalas, na Indonésia, na origem de uma pequena idade do gelo. Photo: gorinjani.com

Click!Harvey, Irma, Jose, Kátia, Maria, Lee e Ophelia: A lista de nomes de furacões do Atlântico continua a crescer de forma alarmante.

O Golfo do México e o arquipélago do Caribe são as principais áreas afetadas, mas não as únicas. De fato, o furacão Ofélia tomou um rumo sem precedentes, remontando pela costa atlântica da Europa, ao largo da costa da Bretanha, antes de atingir a Irlanda. Seus efeitos foram sentidos tanto em Londres quanto na Holanda e na Bélgica, e um tanto inesperadamente, na forma de um céu vermelho-alaranjado - um fenômeno incomum digno dos grandes filmes de ficção científica pós-apocalíptica. Os habitantes da Estônia, por sua vez, ficaram surpresos ao ver uma chuva de cinzas pretas cair. Mas você também pode ir para o sul da Europa, onde a Grécia foi atingida por inundações mortais.

Este tema ardente, que ocupa um lugar importante no fluxo da mídia, juntamente com questões de política e economia, não diz respeito apenas a uma parte isolada do planeta. Ele atingiu espaços geograficamente distantes. Entendemos que não são apenas trocas de comércio internacional ou de e-mail que conectam pessoas de todo o mundo ao mesmo destino. Desastres naturais também podem afetar o mundo, hoje como ontem, a uma escala global: É a oportunidade de mostrar como, na Idade Média, a cidade de Londres e a ilha de Lombok, na Indonésia, foram talvez mais conectadas do que poderíamos imaginar.

Uma recente reportagem do canal de televisão franco-alemão Arte contou a fascinante investigação de pesquisadores franceses nas pegadas de um grande assassino da Idade Média: um misterioso vulcão. Tudo começou com o trabalho dos vulcanologistas nos anos 70, coletando amostras de partículas vulcânicas presas em núcleos de gelo na Groenlândia e na Antártica, que eles conseguiram datar por volta de 1250 e ligados a uma explosão vulcânica de escala enorme - indiscutivelmente uma das mais importantes dos últimos 10.000 anos.

De lá, só faltava buscar o responsável entre uma longa lista de vulcões suspeitos, que vão desde o Peru até a Nova Zelândia. Foram dois vulcanólogos franceses, Jean-Christophe Komorowski e Franck Lavigne, que conseguiram resolver a investigação entre 2010 e 2013: a explosão vulcânica ocorreu em 1257 e veio do vulcão Samalas, na ilha de Lombok, na Indonésia.

No entanto, a história não pára por aí. Os climatologistas, por sua vez, abordaram a questão e apontaram que a erupção era tão poderosa que a massa de partículas vulcânicas expelidas e circulando na atmosfera causou a ruptura do clima global. O hemisfério sul foi o primeiro a ser atingido, seguido pelo hemisfério norte e, em particular, na Europa, onde em alguns lugares a temperatura caiu significativamente e persistentemente por pelo menos um ano. É nesse momento que os historiadores entram em cena para confrontar esses fatos científicos com suas fontes e, assim, detectar os efeitos desses fenômenos nas sociedades.

De acordo com uma crônica de um certo Matthieu Paris, monge beneditino do mosteiro de Saint-Alban, na Inglaterra, Londres foi atingida por um período de grande frio, no verão de 1257. As chuvas constantes tornaram as estradas enlameadas, ao mesmo tempo que milhares de pessoas morreriam de fome e doença por causa de safras ruins relacionadas ao mau tempo.

Na Alemanha, os anais da cidade de Speyer revelam que durante o mesmo ano de 1257, as temperaturas eram tão baixas para a estação, que os habitantes teriam inventado uma palavra especial para designar esse fenômeno incomum: "munkeliar", "o ano sombrio'. No entanto, esta palavra também significava "o ano de neblina", em referência às nuvens que cobriam o país naquela época e que eram, sem dúvida, devido ao deslocamento de enormes massas de partículas vulcânicas na atmosfera, da Indonésia para todo o mundo.

Esta investigação fascinante revela ligações insuspeitas em todo o mundo durante o período medieval. Mas esta pesquisa também nos diz que os historiadores podem trabalhar com outros cientistas para entender melhor o papel dos ambientes naturais nas sociedades ao longo da história. Afinal de contas, um inverno precoce não poderia realmente mudar o resultado de uma batalha ou a vitalidade econômica de um Estado até o levar à sua queda? Essa área de pesquisa histórica, intitulada "história ambiental", voltou fortemente desde a década de 1990, devido à importância crescente das questões climáticas e da ecologia em nosso mundo contemporâneo.

Essa nova visão da história nos permite considerar grandes datas ou pontos de virada históricos com outro olhar. Vamos avançar um pouco mais para a Idade Média e tomar o ano 1453. Aquela data é frequentemente considerada por historiadores e professores como uma data de grande significado, porque foi o ano decisivo onde Constantinopla, capital do Império Bizantino, foi conquistada pelos Turcos otomanos, marcando a morte de um dos maiores impérios da história e, com ele, o fim do período medieval.

Mas se mergulhando de volta um pouco mais no evento, o que vai nos surpreender é aprender que um 25 de maio de 1453, quatro dias antes do ataque final dos Turcos em Constantinopla, uma névoa espessa, perfurada com alguns raios de luz, teria envolto a cidade sitiada. Para os atacantes, foi o presságio de uma vitória próxima, enquanto os defensores viram o sinal de sua derrota. Para um historiador da década de 1960, esse estranho fenômeno permaneceu inexplicável.

Mas, para os historiadores 2.0 de hoje, essa névoa é explicada a partir de um ponto de vista científico com um evento de maior magnitude do que o cerco de Constantinopla: a erupção do vulcão Kuwae no arquipélago do Pacífico de Vanuatu em 1452. Este é novamente uma descoberta de uma equipe de pesquisadores, entre outros historiadores, arqueólogos e climatologistas, que foram capazes de localizar e datar o evento, pelo menos tão impressionante e devastador do que a erupção de 1257.

No local, a ilha vulcânica de Kuwae foi destruída e tomou a forma de uma gigantesca cratera. Mas, além disso, os 35 km3 de material vulcânico ejetado na atmosfera produziram uma enorme nuvem de poeira que percorreu o globo e filtrou a radiação solar. Isso causou, como em 1257, uma queda na temperatura global de até 1 ° C por um ou dois anos. Esta é a origem dessa nuvem misteriosa observada em Constantinopla em 25 de maio de 1453.

Em outro lugar, as consequências desta desordem foram por vezes mais dramática: no Cairo, as inundações do Nilo são insuficientes, em Moscovo reina a fome e na China, as crônicas mencionam nevascas por quarenta dias ao sul do rio Amarelo. Como podemos ver, a erupção que ocorreu em um ponto específico do mundo afetou espaços muito distantes um do outro, ligando indivíduos que vivem na Terra na mesma comunidade de destino e perigo.

Os desastres naturais do outono de 2017 também transcenderam as fronteiras nacionais e causaram grandes transtornos em muitas partes do mundo. Mas, uma das diferenças fundamentais com a Idade Média é que esse tipo de evento pode se tornar mais intenso e, portanto, mais destrutivo no futuro, devido às mudanças climáticas. O mundo está, portanto, cada vez mais conectado aos fenômenos ambientais. Os governos devem aprender a lição: não haverá solução nacional para um problema global.

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