A incrível deformação craniana da Dama de Dully

Tradução de Nicolas Drouvot, 21 de julho de 2019, referindo-se à noticia de Bernadette Arnaud (2/07/19) no site https://www.sciencesetavenir.fr

Reconstrução facial feita a partir da modelagem 3D do crânio deformado de uma mulher burgúndia, descoberta na necrópole de Dully (Suíça), no século 5 dC

Reconstrução facial feita a partir da modelagem 3D do crânio deformado de uma mulher burgúndia, descoberta na necrópole de Dully (Suíça), no século 5 dC. Créditos: Philippe Froesch - Visual Forensic

Rosto reconstituído da mulher burgúndia (quinto século)

Rosto reconstituído da mulher burgúndia (quinto século). © Philippe Froesch - Visual Forensic

Proposta de posicionamente das ataduras que levaram à modificação craniana da Dama de Dully (Suíça)

Proposta de posicionamente das ataduras que levaram à modificação craniana da Dama de Dully (Suíça). © Geneviève Perreard-Lopreno

Inserção de ligamentos e músculos durante a reconstrução 3D do crânio modificado da Dama de Dully

Inserção de ligamentos e músculos durante a reconstrução 3D do crânio modificado da Dama de Dully. © Philippe Froesch - Visual Forensic

Click!Uma reconstrução 3D da face desta mulher burgúndia do quinto século permite visualizar esta prática de deformação craniana artificial.

A morfologia de seu crânio surpreende ou até perturba. O rosto da Dama de Dully já não atende aos critérios de beleza contemporânea com essa notável deformação voluntária. Pelo menos tal como aparece, graças a essa reconstrução digital encomendada a Philippe Froesch, do Laboratório Visual Forensic, em Barcelona (Espanha), a quem já devemos ter dado uma reconstrução dos rostos de Henrique IV e Robespierre. Descoberta em 1974 na necrópole de Dully, uma aldeia na margem norte do Lago de Genebra, no cantão de Vaud (Suíça), esta mulher de quarenta anos, é uma das atrações da exposição sobre a Alta Idade Média, entre os Alpes e o Jura de 350 a 1000, oferecida no Museu da História de Valais até o 5 de janeiro de 2020, em Sion (Suíça), um prelúdio para sua apresentação no Museu Cantonal de Arqueologia e história em Lausanne, de fevereiro a junho de 2020.

"A ideia era poder mostrar, neste período de transição pouco conhecido entre o fim da Antiguidade e o início da Idade Média, as fisionomias que poderiam ter tido pessoas com crânios artificialmente deformados", explica a arqueóloga Lucie Steiner, do Archéodunum, um operador de arqueologia preventiva suíça. Temos cerca de trinta casos deste tipo nesta parte da região do Lago de Genebra, encontrados durante o século XX.

Chegados na região dos lagos em 443, os bárbaros burgúndios rapidamente se assimilaram à população local. Instalados no território da Sapaudia (que dará seu nome a região da Saboia), serão incorporados como aliados ao exército romano liderado pelo general Aécio (395-454). Eles ajudam a defender os limites do mundo romano, enfraquecidos em muitos lugares desde que Roma retirou suas tropas do Reno em 402. "Era um jeito para os Romanos bloquearem o acesso ao Vale do Rhone para os Alamanos ", acrescenta Lucie Steiner.

Entre os Burgúndios, uma das práticas culturais ditadas por considerações estéticas foi a deformação intencional dos crânios. "Para obter essa modelagem, bandagens ou elementos feitos de tecido ou couro comprimiam a cabeça dos bebés no período que fosse maleável", explica Geneviève Perreard-Lopreno, antropóloga do laboratório de arqueologia pré-histórica e antropologia da Universidade de Genebra (Suíça). Tudo isso para obter, para homens ou mulheres, esta testa particular, penhor de beleza.

Este costume - que desaparecerá como e quando a integração dos Burgúndios entre os Galo-romanos - não foi reservado só para este povo. Também é observado entre os Alanos e Sármatas, grupos eurasianos que foram misturados com os Burgúndios durante as grandes migrações. Estas tradições foram descritas em vários sítios arqueológicos na Suíça, assim como no norte da Gália, como em Obernai (Baixo Reno), Germânia e Europa Oriental.

Na Europa, testemunhos dessas mudanças corporais já são encontrados em escritores gregos do século V aC em suas descrições das populações que vivem ao redor do Mar Negro. Essas transformações também foram praticadas na França no século XIX e até o início do século XX. Isso é chamado neste caso de "deformação de Toulouse", mesmo que seja encontrado em outro lugar. Um pequeno gorro era assim usado pelos bebês desde o nascimento e removido com a idade de três meses para obter uma deformação do crânio. Por volta de 1871, o anatomista e antropólogo Paul Broca (1824-1880) estudou mais de uma centena desses casos no sudoeste, no Poitou ou na Normandia. Disposições ‘prefeitorais’ finalmente proibiram a prática.

Nos Andes, na América do Sul, variantes dessas modificações enchem as histórias dos cronistas espanhóis que evocam os Incas. Hoje, os pesquisadores estabeleceram que seus antecessores Paracas (800 aC-200 dC), Nazcas (200-600 dC) e os habitantes de Tiwanaku (5º-11º século) procederam às mesmas transformações. Na América Central e no atual México, os crânios modificados deste jeito eram considerados um dos mais importantes cânones de beleza pela a elite maia. Em outros continentes, esses comportamentos são relatados na Oceania, na África, por exemplo com os Mangbetus (República Democrática do Congo) ou no antigo Egito durante o período de Amarna (século XIV aC). Até o Neandertal teria usado isso!

[Para mais detalhes sobre o Século V dC e o ano 443, veja aqui: "Linha do Tempo, 443 dC"]

[Se você gostou deste artigo, poderá gostar também desta noticia sobre um outro caso de processo de alongamento do crânio, com o homem que viveu há 9.500 anos em Jericó, perto do rio Jordão, na Cisjordânia, cujo o rosto foi reconstruído com base em uma varredura de seu crânio:: Rosto de homem neolítico reconstruído]

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