Agricultores neolíticos na Europa coexistiram com caçadores-coletores por séculos

Traduzido por N.D., 25 de abril de 2018, referindo-se ao artigo de Découvertes Archéologiques do 23/04/18 para http://decouvertes-archeologiques.blogspot.com.br

Estudo de ossadas de um antigo túmulo neolítico de Bátaszék (Hungria)

Estudo de ossadas de um antigo túmulo neolítico de Bátaszék (Hungria). Foto: Anett Osztás

Click!Um novo estudo fornece uma resposta para uma questão muito debatida entre antropólogos e geneticistas: quando os agricultores chegaram à Europa, como reagiram com os grupos de caçadores-coletores existentes?

Estudos anteriores haviam sugerido que esses antigos agricultores do Oriente Médio haviam substituído amplamente os caçadores-coletores europeus pré-existentes.

Os camponeses eliminaram os caçadores-coletores, por guerra ou doença, logo após a sua chegada? Ou eles os excederam lentamente ao longo do tempo?

O estudo recente sugere que esses grupos provavelmente viveram lado a lado por algum tempo antes de os antigos agricultores se espalharem pela Europa.

As populações agrícolas teriam assim progressivamente integrado os caçadores-coletores locais ao longo do tempo.

A transição neolítica, a mudança de um estilo de vida de caçador-coletor para um estilo de vida agrícola que começou há quase 10 mil anos, permaneceu um mistério por muito tempo.

Estudos recentes de ADN mostraram que a disseminação da agricultura em toda a Europa não foi simplesmente o resultado de uma transferência de ideias, mas que os agricultores do Próximo Oriente trouxeram consigo este conhecimento à medida que eles se espalharam pelo continente.

Até agora, numerosos estudos demonstraram que os antigos agricultores de toda a Europa, sejam eles da Península Ibérica, do sul da Escandinávia ou da Europa Central, partilham uma origem comum no Médio Oriente.

Foi uma descoberta inesperada na época, dada a diversidade de culturas pré-históricas e ambientes diversos na Europa. Outro fato interessante, os antigos agricultores também mostraram quantidades variadas de ancestrais caçadores-coletores, que não haviam sido analisados em detalhes.

O recente estudo de uma equipe internacional, incluindo cientistas da Harvard Medical School, da Academia Húngara de Ciências e do Instituto Max Planck de História das Ciências, enfocou sobre as interações regionais entre os antigos agricultores e últimos grupos de caçadores-coletores através de um grande intervalo de tempo em três locais da Europa: no oeste da Península Ibérica, na região centro-Elbe-Saale no norte da Europa, e nas terras férteis da Bacia dos Cárpatos (localizada no que é hoje a Hungria)

Os pesquisadores usaram métodos genotípicos de alta resolução para analisar o genoma de 180 antigos agricultores, dos quais 130 foram relatados pela primeira vez neste estudo, de 6000 a 2200 aC, a fim de explorar as dinâmicas populacionais sobre este período.

"Descobrimos que a mistura de caçadores-coletores variou localmente, mas, mais importante, diferiu amplamente entre as três principais regiões", diz Mark Lipson, pesquisador do Departamento de Genética da Harvard Medical School e coautor do artigo, "isso significa que os caçadores-coletores locais foram lentamente, mas seguramente, integrados às primeiras comunidades agrícolas".

Embora a porcentagem de herança de caçadores-coletores nunca tenha atingido altos níveis, ela aumentou com o tempo. Esta descoberta sugere que os caçadores-coletores não foram caçados ou exterminados pelos agricultores quando chegaram.

Pelo contrário, ambos os grupos parecem ter coexistido com interações crescentes ao longo do tempo. Além disso, os agricultores em cada uma das regiões estudadas eram misturados apenas com caçadores-coletores de sua própria região, e não com caçadores-coletores ou agricultores de outras regiões. Isto sugere que uma vez instalados, eles permaneceram no lugar.

"A novidade em nosso estudo é que podemos diferenciar os primeiros agricultores europeus por sua assinatura específica de caçadores-coletores locais", acrescenta a coautora Anna Szecsenyi-Nagyde da Academia Húngara de Ciências, "os agricultores espanhóis compartilhar ascendência de caçadores-coletores com um indivíduo pré-agrícola de La Braña, Espanha, enquanto os agricultores da Europa Central compartilham mais com os caçadores-coletores perto da região deles, como um indivíduo da caverna de Loschbour no Luxemburgo. Da mesma forma, os agricultores da Bacia dos Cárpatos compartilham mais ancestrais com caçadores-coletores locais em sua área "

A equipe também estudou a duração relativa decorrida desde os eventos de integração entre as populações, usando de técnicas estatísticas avançadas que incidem sobre a decomposição de blocos de DNA herdadas de um único indivíduo.

Este método permite aos cientistas estimar quando as populações se misturaram. Especificamente, a equipe examinou 90 indivíduos da Bacia dos Cárpatos que moravam nas proximidades.

Os resultados, que indicam uma transformação e uma mistura contínua da população, permitiram a equipe construir o primeiro modelo quantitativo de interações entre grupos de caçadores-coletores e grupos de agricultores. "Nós descobrimos que o cenário mais provável é um impulso inicial correspondendo a uma mistura de pequena escala, entre as duas populações, que foi seguido por um fluxo contínuo de genes durante vários séculos", relata David Reich o principal autor, professor de genética na Harvard Medical School.

Esses resultados refletem a importância dos bancos de dados detalhados sobre a informação genética no tempo e no espaço, e sugere que uma abordagem semelhante deve ser igualmente reveladora em outros lugares do mundo.

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