Decorações misteriosas nos ossos de uma mulher em um túmulo de alguns milhares de anos atrás

Traduzido por Nicolas Drouvot, 1 de agosto de 2018, referindo-se à noticia de Szymon Zdziebłowski do 23/07/18 para http://scienceinpoland.pap.pl bem como à noticia de Kristina Killgrove do 27/07/18 para https://www.forbes.com

Reconstrução da mulher com ossos pintados da Ucrânia

Reconstrução da mulher com ossos pintados da Ucrânia / M. Posiadlo

Algum tempo após a morte da mulher, a sepultura foi reaberta, a decoração do osso foi feita e os ossos foram rearranjados na ordem anatômica

"Algum tempo após a morte da mulher, a sepultura foi reaberta, a decoração do osso foi feita e os ossos foram rearranjados na ordem anatômica" / D. Żurkiewicz

Decoração pintada nos ossos de uma mulher de 4.500 anos atrás na Ucrânia

Decoração pintada nos ossos de uma mulher de 4.500 anos atrás na Ucrânia / D. Żurkiewicz

Detalhe das decorações únicas, incluindo linhas paralelas, cobriando os ossos da jovem mulher

Detalhe das decorações únicas, incluindo linhas paralelas, cobriando os ossos da jovem mulher / D. Żurkiewicz

Click!Decorações únicas, incluindo linhas paralelas, cobriam os ossos de uma jovem enterrada há 4,5 mil anos em um tumulo localizado no centro da Bacia do Dniester (atual Ucrânia).

Segundo os cientistas, as marcas foram feitas após a morte e o processo de decomposição do corpo.

A partir de 2010, uma equipe de arqueólogos poloneses e ucranianos desenterrou, no centro de Dniester (Ucrânia), 61 pessoas de quatro montículos funerários - antigos montes de terra e pedras construídas em um ou mais enterros. O tipo de túmulos data de pelo menos 5.500 anos, no início do Neolítico, e é considerado uma das formas mais antigas de estrutura arquitetural do mundo. O objetivo da equipe era estudar esta área geográfica como um dos importantes centros de trocas culturais do Neolítico através da Idade do Bronze e do Ferro.

Em um relatório publicado no ano passado no Baltic-Pontic Studies (2017), Liudmyla Litvinova, da Academia Ucraniana de Ciências, e sua equipe publicaram suas descobertas sobre os esqueletos dos quatro túmulos. A maioria estava relacionada à cultura Yamna ou Yamnaya, um termo que significa "cultura em fossas" após as formas específicas de sepultamento, que datam de 3300-2600 aC. É importante notar que a área cultural de Yamnaya é uma das principais suposições sobre a origem da língua proto-indo-européia.

Poucas pessoas conhecem esse grupo pré-histórico, mas os bioarqueólogos usam a análise esquelética e de DNA para esclarecer suas vidas. Por exemplo, a presença de respostas anêmicas em muitos crânios, juntamente com a falta de cáries dentárias, sugere que elas ingerem uma dieta pobre em carboidratos, mas rica em proteínas, consistente com a economia da criação de animais. Tal como acontece com outras culturas pastoris, acredita-se que os Yamnaya tenham sido patriarcais, e os machos adultos são geralmente no centro dos enterros dos túmulos.

Um esqueleto feminino, no entanto, pareceu diferente quando os pesquisadores o observaram de perto. Ela foi encontrada no sítio arqueológico de Porohy, enterrado com outros 13 adultos e cinco crianças, tendo morrido aos vinte e tantos anos. Seu esqueleto revelou sinais de anemia e outros problemas alimentares.

"Ao desenhar e fotografar o enterro, nossa atenção foi atraída para padrões regulares, como linhas paralelas visíveis em ambos os ossos do cotovelo. Inicialmente, nos aproximamos da descoberta com cuidado - talvez fossem vestígios deixados por animais, diz Danuta Żurkiewicz, do Instituto de Arqueologia da Universidade Adam Mickiewicz de Poznań, que preparou um artigo sobre as decorações. "

Apenas análises recentes realizadas com fundos do Programa Nacional para o Desenvolvimento das Ciências Humanas por especialistas da Faculdade de Química da Universidade Adam Mickiewicz e do Departamento de Medicina Forense da Univeridade de Ciências Médicas em Poznań trouxeram à luz esta questão. Segundo Żurkiewicz, os motivos são claramente feitos pelo homem. Uma substância negra foi usada - provavelmente semelhante ao alcatrão obtido da madeira, sugerem os cientistas.

"É surpreendente que o procedimento de decorar os ossos tivesse que ser feito após a morte e o processo de decomposição do corpo, o que é claramente indicado pela localização da decoração na superfície óssea e pela maneira como a tinta é aplicada. ". Segundo ela, a recente descoberta prova o quão complicados os rituais funerários foram milênios atrás. "

"Algum tempo após a morte da mulher, a sepultura foi reaberta, a decoração do osso foi feita e os ossos foram rearranjados na ordem anatômica".

Segundo Żurkiewicz, esta descoberta é única - até agora nenhuns costumes semelhantes entre outras comunidades pré-históricas na Europa foram registrados. "Até agora, alguns resultados semelhantes têm sido interpretados como os restos de tatuagens, mas nenhum foram analisados usando muitos métodos modernos, e é por isso que não pode ser confirmados com confiança" - disse ela.

A população que vivia na região central do Dniester há cerca de 4.500 anos era uma comunidade de pastor nômade - as carroças eram usadas para longas distâncias. Consequentemente, nenhuma instalação permanente foi construída, o que se reflete na falta de descobertas de casas desse período. Por outro lado, no caso dos enterros, túmulos monumentais foram criados e desempenharam um papel importante na vida das comunidades contemporâneas.

"No entanto, as mulheres raramente foram enterradas lá. A falecida, cujos ossos estavam cobertos de motivos, deveria ser um membro importante da comunidade ", disse Urkiewicz.

Tatuagens simples são bem conhecidas em Ötzi, a múmia do homem que morreu por volta de 3300 aC nos Alpes; parecem ter sido feitos a partir de fuligem. Mais tarde, nos enterros da cultura Pazyryk na Sibéria, há também evidências de tatuagens. As tatuagens na pele viva, no entanto, são bem diferentes das decorações no osso morto.

Essas concepções são antes uma forma de ritual funerário secundário - como os bioarqueólogos chamam. Esses rituais após a morte não são incomuns em todo o mundo, especialmente em culturas antigas que reutilizaram sepulturas ou membros da família, reenterrados juntos em um túmulo coletivo. Mas os pesquisadores observam que nada como isso jamais foi registrado em comunidades pré-históricas na Europa antes.

Embora o significado dos desenhos sobre os ossos provavelmente será discutido durante anos, é claro que um interesse acrescentado para a cultura Yamnaya da Europa Oriental e seu vizinho, a Cultura Cordada na Europa Central, está mudando a maneira cujo nós percebemos os antepassados pastorais, dos quais quase a metade de nós ainda fala as línguas hoje.

Essa descoberta é descrita com mais detalhes no Volume 22 dos Estudos Báltico-Pônticos, que estará disponível on-line na plataforma aberta De Gruyter em agosto de 2018.

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