Descoberta em Israel do mais antigo « Homo sapiens » fora da África

Por ND, 26 de janeiro de 2018, referindo-se ao artigo de Hervé Morin (25/01/18) para http://www.lemonde.fr/

O fóssil é constituído por uma maxila esquerda

O fóssil é constituído por uma maxila esquerda / ISRAEL HERSHOVITZ - TEL AVIV UNIVERSITY

Caverna de Misliya, onde o mais antigo fóssil de Homo sapiens fora da África foi descoberto

Caverna de Misliya, onde o mais antigo fóssil de Homo sapiens fora da África foi descoberto / MINA WEINSTEIN-EVRON - HAIFA UNIVERSITY

Click!Um fóssil de 180 mil anos encontrado no Monte Carmelo em Israel seria o representante mais antigo de nossa espécie conhecido fora do berço africano da humanidade!

Quando o homem moderno, também conhecido como Homo sapiens, saiu da África? A presença de fósseis pertencentes a nossa espécie nas cavernas israelenses de Skhul e Qafzeh, datadas respectivamente de 90.000 e 120.000 anos atrás, forneciam uma estimação bastante ampla. Mas a descoberta de um meio mandíbula de cerca de 180 mil anos atrás, na caverna próxima de Misliya, no Monte Carmelo, também atribuída a um sapiens, mostra que as excursões ao Levante aconteceram muito mais cedo do que tínhamos considerado antes.

"Isso quase duplica a idade dessas primeiras migrações para fora da África", diz o antropólogo Israel Hershkovitz (Universidade de Tel Aviv), responsável pelas escavações. E também significa que os períodos de interação com os outros representantes do gênero Homo que já estavam fora da África foram muito mais longos do que pensávamos. Com o anúncio em 2017 da descoberta em Marrocos, no site de Djebel Irhoud, de um representante da nossa linhagem de 315 000 anos de idade, agora devemos mais uma vez empurrar para trás no tempo e no espaço a estimação da saída do homem moderno da África.

Quando a gente fala do fóssil de Misliya, se trata na verdade apenas de um fragmento de maxila superior esquerda com os dentes associados. Nenhum crânio completo ou ossos dos membros. O estudo desses restos, no entanto, levou um tempo considerável: a escavação desta caverna começou em 2001. O fóssil foi encontrado já na estação seguinte. Mas a equipe internacional criada para analisar esses restos, data-los e colocá-los em seu contexto arqueológico, tomou todas as precauções antes de publicar seus resultados, sexta-feira, 26 de janeiro na revista Science.

"Tivemos que retrabalhar o artigo, fazer mais análises para convencer as pessoas responsáveis pela revisão do manuscrito, diz Israel Hershkovitz. Uma das nossas respostas fazia mais de 54 páginas, para justificar as conclusões do nosso artigo que fazia apenas três páginas...

A datação foi confiada a três laboratórios, na França, Israel e Austrália, que trabalharam com diferentes métodos. Todos convergem em torno de 180 000 anos, exceto a datação direta de um dente, com 70 000 anos de idade. "Esta datação urânio-tório depende da absorção de urânio pelos dentes, que são um pouco como esponjas, mas o problema é que não podemos saber se eles absorveram esse urânio em uma vez só ou progressivamente, explica Hélène Valadas, do Laboratório de Ciências Climáticas e Ambientais (Gif-sur-Yvette), que participou a estas datações. Por outro lado, o mesmo método é muito mais confiável para a crosta mineral que envolvia o fóssil, datado de 185 mil anos atrás. "

A antiguidade de Misliya-1 - o nome oficial do fóssil - não está então em dúvida, como também a sua atribuição a uma versão arcaica de nossa espécie: a forma dos dentes não permite confundir com um Homem de Neandertal "ou outros homininos do Pleistoceno médio da Europa, e o coloca ao lado dos humanos modernos e próximo daquele de Jebel Irhoud ", escrevem os pesquisadores.

Como viveram esses homens, protegidos nessas cavernas? Eles tinham uma sensação de conforto, observou a arqueóloga Mina Weinstein-Evron (Universidade de Haifa) com respeito a vestígios de plantas misturadas que sugerem alguns "colchões." "Eles caçavam gazelas, auroques, javalis. A gente encontrou também cascas de ovo de avestruz. Podemos imaginar recipientes, ou grandes omeletes, ela diz. Ferramentas pontiagudas foram usadas para extrair tubérculos. Há também conchas, mas não sabemos se foram trazidas para lá por pássaros. Como sobremesa, havia bagas. Em suma, eles aproveitavam o ambiente. "

O que significa a presença precoce deles nestas margens africanas? "Esta descoberta esclarece um modelo que está emergindo sobre a saída da África de nossa espécie, baseada em dados genéticos e climáticos", diz Jean-Jacques Hublin (do Instituto Max Planck, Leipzig e Collège de France), co-descobridor dos fósseis de Djebel Irhoud. A respeito da genética, algumas análises de ADN antigo sugerem que os primeiros cruzamentos entre Homo sapiens e seu primo Neandertal, também presente na região do Levante, mais antigamente, poderiam ter ocorrido entre 220 000 e 460 000 anos. Neste caso, "os fósseis de Homo sapiens de Misliya, Skuhl e Qafzeh poderiam representar passeios relativamente tardios de nossa espécie para fora da África", disse Chris Stringer e Julia Galway-Witham (Museu de História Natural de Londres) em um comentário publicado na revista Science. Outros sapiens, ainda para descobrir, os teriam precedidos.

Do lado do clima, períodos de "Saara verde", quando a região do Oriente Médio era menos árida, seguiram-se nos últimos 500 mil anos. "Talvez tinha havido uma saída da África durante um desses episódios verdes há 300.000 anos, e depois mais recentemente, mas talvez essas excursões não foram inteiramente bem-sucedidas até um período recente ", diz Jean-Jacques Hublin. Na verdade, o Homo sapiens está presente na Europa apenas a partir de 50 000 anos, pouco antes do desaparecimento de Neandertal.

Para Israel Hershkovitz, episódios verdes ou não, "Israel nunca esteve vazio, pelo menos na zona costeira, onde sempre houve recursos suficientes para subsistir". Se o Homo sapiens chegou tarde na Europa, foi porque ele não estava adaptado ao clima mais frio que prevalecia: "Por que ir lá, enquanto a estrada estava aberta para o leste, onde o clima era mais favorável? Isso poderia explicar a presença de 47 dentes humanos de 120 mil anos de idade na caverna de Daoxian, China, descoberta anunciada em 2015.

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