Doggerland, o território engolido há 8.000 anos sob o Mar do Norte

Traduzido por Nicolas Drouvot, 7 de agosto de 2018, referindo-se à noticia de Jean-Paul Fritz do 2/08/18 para https://www.nouvelobs.com
bem como à noticia de HeritageDaily do 7/07/18 para https://www.heritagedaily.com

A ilha desaparecida de Doggerland.

A ilha desaparecida de Doggerland.

Mapa mostrando a extensão hipotética do Doggerland (c. 10.000 aC), que forneceu uma ponte de terra entre a Grã-Bretanha e a Europa continentald

Mapa mostrando a extensão hipotética do Doggerland (c. 10.000 aC), que forneceu uma ponte de terra entre a Grã-Bretanha e a Europa continental (Max Naylor / Wikimedia Commons)

Mapa mostrando as etapas de evolução da área de Doggerland

Mapa mostrando as etapas de evolução da área de Doggerland - Crédito: Francis Lima

Os mergulhadores descobriram as mais antigas armadilhas de peixe estacionárias conhecidas no norte da Europa, na costa sul da Suécia.

Os mergulhadores descobriram as mais antigas armadilhas de peixe estacionárias conhecidas no norte da Europa, na costa sul da Suécia.

Enxada de 9.000 anos atrás feita com um chifre de alce

Enxada de 9.000 anos atrás feita com um chifre de alce. (Frame do vídeo: Universidade de Lund)

Click!Milhares de anos atrás, a Inglaterra estava ligada ao continente por uma faixa de terra. Embaixo d'água, esse território habitado entrega hoje seus segredos.

Dezoito mil anos atrás, o rio Tâmisa era um afluente do Reno, para seguir depois o curso do meio do atual Canal e se lançar ao Atlântico, a cerca de 200 quilômetros ao largo da atual cidade de Brest.

Nesse período imediatamente após a última era glacial, não havia ilhas britânicas, apenas uma extensão do continente europeu. Não havia necessidade de um barco para ir de Calais a Dover, bastava atravessar a pé.

Desde então, o mundo sofreu um aquecimento global, lento e natural. O gelo derreteu, as águas começaram a subir. Há 10.000 anos, este grande rio Reno-Tâmisa desembocava em algum lugar entre Le Havre e Brighton. Há 9.000 anos, o estuário desembocava entre Dieppe e Hastings, depois entre Calais e Dover.

Os primórdios do Holoceno, o último período da era quaternária, viram a geografia se transformar com o aumento do nível do mar.

Da gigantesca faixa de terra que ligava a Inglaterra à Dinamarca, à Bélgica e à Holanda, restava apenas um banco de areia, o Dogger Bank. Estes bancos de areia representam uma área de 17.600 quilômetros quadrados (duas vezes a Córsega), submersos entre 15 e 36 metros de profundidade. Antigamente, eram colinas. Ao redor, havia florestas, pântanos, planícies. E humanos viveram lá.

Este pedaço de continente agora deitado debaixo d'água tem um nome: Doggerland. Alguns o apelidaram de "Atlântida do Mar do Norte", em homenagem ao continente perdido de Platão. Mas, na falta de civilização perdida, caçadores-coletores percorreram esta terra, e seus rastros nos aguardam lá.

Algumas pistas foram devolvidas pelas águas, como este crânio de mamute lanoso de 40.000 anos recuperado por pescadores na costa holandesa em 1999.

Vários anos depois, à beira da plataforma continental da Holanda, outros pescadores pegaram em suas redes um objeto de arte: um osso de bisonte esculpido de 13.500 anos de idade. Este trabalho de um caçador-coletor que passeava pelas terras da Doggerland é decorado com ziguezagues, num simbolismo que hoje nos escapa.

Muitos objetos e ossos foram devolvidos pelas águas do Mar do Norte, vestígios da vida perdida desta terra perdida de Doggerland. Uma terra então habitada, como também o demonstram algumas descobertas feitas na borda com o continente.

Da borda de Doggerland, há vestígios de uma floresta afundada, descoberta a 200 metros da costa nordeste da Inglaterra, perto da vila de Low Hauxley. Areia e turfa preservaram esses restos hoje descobertos pela erosão, mas as crescentes águas do aquecimento global contemporâneo, ameaçam submergi-las novamente.

"Em 5000 aC, o nível do mar subiu rapidamente e inundou a terra", diz o Dr. Clive Waddington do Arqueologia Research Services, que escavou o sítio. "As dunas de areia foram empurradas mais para o interior, enterrando a floresta e o mar depois recuou um pouco. O nível do mar sobe de novo, cortando entre as dunas e descobrindo de novo a floresta." Temporariamente.

Além das árvores, os arqueólogos também encontraram pegadas de animais... e humanos, adultos como crianças. "Podemos dizer pela forma das impressões que eles estavam usando sapatos de couro", diz o Dr. Waddington.

Ao largo da costa sul da Suécia, arqueólogos da Universidade de Lund descobriram um acampamento de pesca sazonal. Localizado na margem do que era então uma lagoa, em uma paisagem de florestas de pinheiros, é agora cerca de vinte metros sob a água, e os artefatos foram encontrados até três quilômetros da costa.

Os pesquisadores encontraram, entre outras coisas, ferramentas (incluindo uma espetacular enxada feita com um chifre de alce) e armadilhas para peixes. Tudo indicava uma pescaria intensiva quando esses humanos estavam lá, 9.000 anos atrás.

O fim da última grande ilha de Doggerland, a que sobreviveu à subida das águas, é catastrófico, pelo menos segundo uma teoria apresentada por pesquisadores britânicos.

Há pouco mais de 8.000 anos, ocorreu um deslizamento de terra no mar da Noruega. O tsunami que se seguiu devastou as costas vizinhas. As ondas atingiram entre 10 e 20 metros de altura na costa norueguesa, uma dúzia de metros nas ilhas Shetland... e até chegaram à Groenlândia.

Mais ao sul, é o Doggerland que teria sido inundado. Se ainda houvesse habitantes, eles teriam perecido ou abandonado as ilhas, antes mesmo que a ascensão das águas os engolisse definitivamente.

O Doggerland, no entanto, está muito longe de ter entregado todos os seus segredos. Para tentar os descobrir, na ponta da pesquisa, está o professor Vincent Gaffney, da Universidade de Bradford. À cabeça do projecto "Europe's lost frontiers", financiado pelo Conselho Europeu de Investigação, este arqueólogo e as suas equipas multidisciplinares organizam regularmente expedições marítimas para descobrir vestígios dos habitantes de Doggerland. Seu programa deve continuar até 2020.

Misturando arqueologia e novas tecnologias, esses cientistas usam instrumentos de detecção de última geração para modelar os fundos marinhos correspondentes às terras pré-históricas. No final de abril de 2018, eles já conseguiram modelar uma área de 45.000 km2, que é maior que a da Suíça ou da Holanda.

O que eles estão procurarão? Índices de como as comunidades que viviam nessas terras responderam às mudanças climáticas, bem como índices sobre o declínio das sociedades de caçadores-coletores com o advento da agricultura. As terras emersas experimentaram ondas de ocupação humana e muitas mudanças na paisagem. Por outro lado, as terras submersas foram capazes de manter os vestígios daqueles que as percorreram, há até 8.000 anos atrás.

"Se você realmente quer entender como os seres humanos se espalharam para fora da África e seu modo de vida, precisamos encontrar seus assentamentos", diz Anton Hansson, da Universidade de Lund. "Alguns deles estão atualmente debaixo de água."

"A perda do Doggerland parece ainda mais relevante em uma época em que a Grã-Bretanha e o mundo estão enfrentando a mudança climática, a migração e as consequências de uma imensa agitação social", diz o professor Gaffney.

"Nesse estágio, pode ser útil considerar o impacto histórico de eventos traumáticos de um passado não tão distante, e o contexto europeu mais amplo e de fato global, da Grã-Bretanha em um mundo que muda rapidamente e de maneira fundamental. "

O fim do Doggerland é o primeiro Brexit, o verdadeiro, aquele o que separou as Ilhas Britânicas do continente.

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