Dois sítios pré-hispânicos de sacrifício em massa de crianças descobertos no Peru

Artigo de Kristin Romey do 27/04/18 para https://www.nationalgeographicbrasil.com
completado por ND, 13 de junho de 2018, com o artigo de GEO do 9/06/18 para https://www.geo.fr

Nesta foto de 22 de abril de 2011, fornecida pela National Geographic, mais de uma dúzia de corpos preservados na areia há mais de 500 anos em Huanchaquito-Las Llamas, perto de Trujillo, Peru.

Nesta foto de 22 de abril de 2011, fornecida pela National Geographic, mais de uma dúzia de corpos preservados na areia há mais de 500 anos em Huanchaquito-Las Llamas, perto de Trujillo, Peru.

Vítimas de um evento desesperado, uma criança (à esquerda) e uma lhama bebê (à direita) foram parte do assassinato de mais de 140 crianças e mais de 200 lhamas na costa norte do Peru, em cerca de 1450 d.C.

Vítimas de um evento desesperado, uma criança (à esquerda) e uma lhama bebê (à direita) foram parte do assassinato de mais de 140 crianças e mais de 200 lhamas na costa norte do Peru, em cerca de 1450 d.C. / foto de Gabriel Prieto

A evidência para os assassinatos rituais inclui um crânio manchado com pigmento vermelho baseado em cinábrio, um osso de costela humano com marcas de corte e um esterno cortado ao meio

A evidência para os assassinatos rituais inclui um crânio manchado com pigmento vermelho baseado em cinábrio, um osso de costela humano com marcas de corte e um esterno cortado ao meio / foto de Photographs by John Verano

Muitas das crianças tiveram seus rostos manchados com um pigmento vermelho à base de cinábrio durante a cerimônia, antes que seus peitos fossem abertos, provavelmente para remoção de seus corações

Muitas das crianças tiveram seus rostos manchados com um pigmento vermelho à base de cinábrio durante a cerimônia, antes que seus peitos fossem abertos, provavelmente para remoção de seus corações. As lhamas de sacrifício parecem ter encontrado o mesmo destino.

Segundo local onde os arqueólogos descobriram os restos mortais de mais de 50 crianças que teriam sido sacrificadas durante um ritual de cultura pré-colombiana de Chimù, na costa norte do Peru

Segundo local onde os arqueólogos descobriram os restos mortais de mais de 50 crianças que teriam sido sacrificadas durante um ritual de cultura pré-colombiana de Chimù, na costa norte do Peru. Foto divulgada em 8 de junho de 2018 pela Agência Peruana Andina / © ANDINA / AFP / HO.

Click!Cerca de 140 crianças de idades entre 5 e 14 anos foram assassinadas em um único evento, há mais de cinco séculos, em Huanchaquito-Las Llamas. O local foi escavado entre 2011 et 2016.

Agora, mais de 50 outras crianças, mortas durante um sacrifício ritual, foram encontradas em Pampa La Cruz, perto do lugar da primeira descoberta, na região costeira de Trujillo, 700 km ao norte de Lima. Mas este novo sítio poderia facilmente abrigar mais que o dobro dos restos descobertos em Huanchaquito.... Qual teria sido o motivo?

Evidências do maior incidente isolado de sacrifício em massa de crianças nas Américas, e provavelmente na história mundial, foram descobertas na costa norte do Peru, disseram arqueólogos à National Geographic.

Mais de 140 crianças e 200 lhamas jovens parecem ter sido ritualmente sacrificados em um evento ocorrido há 550 anos, em um penhasco com vista para o Oceano Pacífico, à sombra do que era então a capital do Império Chimú.

Investigações científicas da equipe interdisciplinar internacional, liderada por Gabriel Prieto, da Universidad Nacional de Trujillo, e John Verano, da Tulane University, estão em andamento. O trabalho é apoiado pela National Geographic Society.

Embora incidentes de sacrifício humano entre astecas, maias e incas tenham sido registrados em crônicas espanholas da era colonial e documentados em escavações científicas modernas, a descoberta de um evento de sacrifício infantil em grande escala na civilização pré-colombiana de Chimú é sem precedentes nas Américas, e talvez no mundo.

"Eu, por exemplo, nunca esperaria isso", diz Verano, antropólogo físico que trabalha na região há mais de três décadas. "E eu não acho que qualquer outra pessoa esperaria."

O local do sacrifício, formalmente conhecido como Huanchaquito-Las Llamas, está localizado em um penhasco a apenas 300 metros do mar, em meio a uma crescente expansão de aglomerados residenciais de concreto no distrito de Huanchaco, no norte do Peru. A menos de 800 metros a leste do local está o Chan Chan, Patrimônio Mundial da UNESCO, o antigo centro administrativo de Chimú e, além de suas muralhas, a moderna capital da província de Trujillo.

No seu auge, o Império Chimu controlou um território de 940 quilômetros ao longo da costa do Pacífico e vales internos da moderna fronteira Peru-Equador, até Lima.

Os Incas comandavam, sozinhos, um império maior do que o de Chimú na América do Sul pré-colombiana, e as forças incas superiores puseram fim ao Império Chimu, em cerca de 1475 d.C.

Huanchaquito-Las Llamas (geralmente referido pelos pesquisadores como "Las Llamas") chegou às manchetes em 2011, quando os restos mortais de 42 crianças e 76 lhamas foram encontrados durante uma escavação de emergência dirigida pelo co-autor do estudo, Prieto. Arqueólogo e nativo de Huanchaco, Prieto estava escavando um templo de 3,5 mil anos na estrada próxima ao local do sacrifício quando os moradores locais o alertaram, pela primeira vez, sobre restos humanos erodindo das dunas costeiras.

Quando as escavações foram concluídas em Las Llamas, em 2016, mais de 140 conjuntos de restos de crianças e 200 lhamas jovens foram descobertos no local. Cordas e tecidos encontrados nos sepultamentos foram datados por radiocarbono entre 1400 e 1450.

Os restos dos esqueletos das crianças e animais mostram evidências de cortes no esterno, bem como deslocamentos de costelas, que sugerem que os peitos das vítimas foram abertos e separados, talvez para facilitar a remoção do coração.

Os restos mortais de três adultos, um homem e duas mulheres, foram encontrados nas proximidades das crianças e dos animais. Sinais de traumatismo na cabeça e falta de itens comuns no sepultamento com os corpos de adultos levam os pesquisadores a suspeitar que eles podem ter desempenhado um papel no sacrifício e foram mortos pouco tempo depois.

As 140 crianças sacrificadas tinham entre 5 e 14 anos, a maioria entre 8 e 12 anos, e muitos estavam enterrados de frente para o oeste, para o mar. As lhamas tinham menos de 18 meses e geralmente eram enterradas voltadas para o leste, em direção aos altos picos dos Andes.

Os investigadores acreditam que todas as vítimas -- humanas ou não -- foram mortas ritualmente em um único evento, com base em evidências de uma camada de lama seca encontrada na parte leste, local menos perturbado entre os 7,5 mil metros quadrados. Eles acreditam que a camada de lama uma vez cobriu toda a duna arenosa onde o ritual ocorreu, e foi perturbada durante a preparação dos poços de sepultamento e o evento de sacrifício posterior.

Arqueólogos descobriram pegadas de adultos com sandálias, cães, crianças descalças e lhamas jovens preservadas na camada de lama, com marcas profundas de derrapagem, ilustrando onde relutantes oferendas de quatro patas podem ter sido forçadas a encontrar sua morte.

Uma análise das pegadas pode também permitir que os arqueólogos reconstruam a procissão do ritual: parece que um grupo de crianças e lhamas foi conduzido ao local a partir das bordas norte e sul do penhasco, encontrando-se no centro do local, onde teriam sido sacrificados e enterrados. Os corpos de algumas crianças e animais foram simplesmente deixados na lama molhada.

Se a conclusão dos arqueólogos estiver correta, Huanchaquito-Las Llamas pode ser uma evidência científica convincente do maior evento de sacrifício em massa de crianças conhecido na história do mundo.

Até agora, o maior evento de sacrifício em massa de crianças, do qual temos provas físicas, é o assassinato ritual e o enterro de 42 crianças no Templo Mayor na capital asteca de Tenochtitlán (atual Cidade do México).

A descoberta de crianças vítimas individuais de sacrifício recuperadas dos rituais do topo da montanha Inca também chamou a atenção do mundo.

Fora das Américas, arqueólogos em locais como a antiga cidade fenícia de Cartago discutem se os restos mortais encontrados constituem sacrifícios rituais e, se assim for, se tais eventos rituais ocorreram ao longo de décadas ou mesmo séculos.

Verano enfatiza que tais evidências claras para eventos de sacrifício em massa deliberados e singulares, como aqueles evidenciados em Las Llamas, são extremamente raros de encontrar em contextos arqueológicos.

A análise dos restos mortais de Las Llamas mostra que crianças e lhamas foram mortos com cortes transversais consistentes e eficientes no esterno. A falta de cortes hesitantes indica que eles foram feitos por uma ou mais mãos treinadas.

"É um assassinato ritual e é muito sistemático", diz Verano.

O sacrifício humano tem sido praticado em quase todos os cantos do globo em vários momentos, e os cientistas acreditam que o ritual pode ter desempenhado um papel importante no desenvolvimento de sociedades complexas por meio da estratificação social e do controle das populações por classes sociais de elite.

A maioria dos modelos sociais que veem o sacrifício humano, no entanto, baseia-se na morte ritual de adultos, diz Joseph Watts, pesquisador de pós-doutorado da Universidade de Oxford e do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana.

"Eu acho que é definitivamente mais difícil explicar o sacrifício de crianças", diz ele, "sobretudo em um nível pessoal."

O sacrifício em massa de apenas crianças e lhamas jovens que ocorreu em Las Llamas, no entanto, parece ser um fenômeno anteriormente desconhecido no registro arqueológico, e imediatamente levanta a questão: O que motivaria Chimú a cometer tal ato?

Prieto admite que esta é frequentemente a primeira pergunta que ele encontra quando compartilha sua pesquisa sobre Las Llamas com colegas cientistas e a comunidade local.

A camada de lama encontrada durante as escavações pode fornecer uma pista, dizem os pesquisadores, que sugerem que foi o resultado de chuvas fortes e inundações no litoral geralmente árido, e provavelmente associado a um evento climático relacionado ao El Niño.

As altas temperaturas do mar características do El Niño teriam atrapalhado a pesca marinha na área, enquanto as inundações costeiras poderiam ter sobrecarregado a extensa infra-estrutura de canais agrícolas do Chimú.

Chimú sucumbiu ao Império Inca apenas décadas depois dos sacrifícios em Las Llamas.

Haagen Klaus, professor de antropologia da George Mason University, escavou algumas das primeiras evidências de sacrifício de crianças na região, no local do Cerro Cerillos dos séculos 10 e 12, no Vale do Lambayeque, ao norte de Huanchaco. O bioarqueólogo, que não é membro do projeto Las Llamas, sugere que as sociedades ao longo da costa peruana do Norte podem ter se voltado para o sacrifício de crianças quando o sacrifício de adultos não foi suficiente para afastar as repetidas perturbações provocadas pelo El Niño.

"As pessoas sacrificam aquilo que é de maior valor para eles", explica ele. "Eles podem ter visto que [o sacrifício de adultos] era ineficaz. As chuvas continuaram a vir. Talvez houvesse necessidade de um novo tipo de vítima de sacrifício ".

"É impossível saber sem uma máquina do tempo", diz Klaus, acrescentando que a descoberta de Las Llamas é importante, pois aumenta nosso conhecimento sobre a violência ritual e as variações do sacrifício humano nos Andes.

"Existe a ideia de que o ritual de morte é contratual, que é realizado para obter algo de divindades sobrenaturais. Mas na verdade é uma tentativa muito mais complicada de negociar com essas forças sobrenaturais e de sua manipulação pelos vivos ”.

Agora, de novo, mais de 50 outras crianças foram encontradas em Pampa La Cruz, perto do lugar da primeira descoberta. Mas este novo sítio poderia facilmente abrigar mais que o dobro dos restos descobertos em Huanchaquito....

Os restos mortais das 56 crianças, com idades entre seis e 14 anos, foram encontrados no início de maio, envoltos em mortalhas de algodão voltadas para o mar, um quilômetro ao norte de Huanchaquito.

"O interessante é que eles foram sacrificados por uma incisão no esterno e que suas costelas estão separadas, como em Huanchaquito", reforçando a hipótese de que "Huanchaco era um lugar onde os sacrifícios rituais eram comumente praticados" durante a civilização Chimu ", disse Prieto.

A equipe científica está agora realizando o trabalho minucioso de desvendar as histórias de vida das vítimas, tais como quem eram e de onde elas vieram.

Embora seja difícil determinar o sexo com base nos restos do esqueleto em uma idade tão jovem, análises preliminares de DNA indicam que meninos e meninas foram vítimas, e a análise isotópica indica que eles não foram todos provenientes de populações locais, mas provavelmente vieram de diferentes grupos étnicos e regiões do Império Chimú.

A evidência de modificação craniana, praticada em algumas áreas montanhosas da época, também apoia a ideia de que as crianças foram trazidas para a costa a partir de áreas mais distantes de Chimú.

"Embora tenham sido relatados sacrifícios humanos entre os astecas, maias e incas nas crônicas espanholas da era colonial e documentados em escavações científicas modernas, a descoberta de um sacrifício infantil em grande escala na civilização Chimu pré-colombiana, que é pouco conhecida, é uma descoberta sem precedentes não só na América, mas em todo o mundo ", escreveu a National Geographic.

Desde a descoberta em Las Llamas "(...) você fica imaginando quantos outros locais como esse podem existir na área para pesquisas futuras", diz Prieto. "Isso pode ser apenas a ponta do iceberg."

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