Gordura animal em cerâmicas antigas revela um período quase catastrófico da pré-história humana

Traduzido por Nicolas Drouvot, 15 de agosto de 2018, referindo-se à noticia de Michael Price do 13/08/18 para http://www.sciencemag.org

O local de Çatalhöyük na Turquia.

O local de Çatalhöyük na Turquia. Crédito: Firdes Sayilan/shutterstock.com.

A cidade de Çatalhöyük

A cidade de Çatalhöyük. Crédito da imagem: Dan Lewandowski.

Click!Há pouco mais de 8.000 anos, o mundo de repente esfriou, resultando em verões muito mais secos na maior parte do hemisfério norte.

O impacto sobre os primeiros agricultores deve ter sido extremo, mas os arqueólogos não sabem muito sobre como eles lidaram com essas condições climáticas adversas. Agora, os resíduos de gordura animal encontrados em cerâmicas quebradas de uma das cidades proto-históricas mais antigas e mais incomum do mundo - conhecida como Çatalhöyük - finalmente está revelando para os cientistas como esses povos antigos enfrentaram o desastre.

"Acho que os autores fizeram um excelente trabalho", diz John Marston, um arqueólogo ambiental da Universidade de Boston que não esteve envolvido neste estudo. "Isso mostra que os habitantes de Çatalhöyük eram incrivelmente resistentes".

Hoje Çatalhöyük é apenas uma série de ruínas poeirentas e ensolaradas no centro da Turquia. Mas milhares de anos atrás, era uma metrópole pré-histórica animada. De cerca de 7500 aC a 5700 aC, os primeiros agricultores cultivavam trigo, cevada e ervilhas e criavam ovelhas, cabras e gado. No seu auge, quase 10.000 pessoas moravam lá. Entre suas características mais notáveis, os moradores de Catalhoyuk eram obcecados com gesso, usando-o para revestir as paredes, como uma tela para as obras de arte, bem como para cobrir os crânios de seus mortos para recriar um rosto realista de seus parentes.

Por volta de 6200 aC, os climas esfriaram em todo o mundo. Os cientistas acreditam que grandes lagos glaciais na América do Norte se espalharam pelo Oceano Atlântico, alterando as correntes oceânicas e as condições climáticas, e causando o que é conhecido em inglês como o evento de "8.2-kiloyears" (em referência à sua aparência há 8200 anos atrás).

Uma equipe de pesquisadores liderada pelos bioquímicos Melanie Roffet-Salque e Richard Evershed, da Universidade de Bristol, no Reino Unido e do arqueólogo Arkadiusz Marciniak da Universidade Adam Mickiewicz, em Poznan, Polônia, questionaram se os agricultores de Çatalhöyük não teriam deixados rastros destas mudanças climáticas. Nos últimos anos, Marciniak descobriu fragmentos de cerâmica rejeitados em velhas pilhas de lixo que datavam de 8300 a 7900 anos.

Esses potes de argila foram usados para armazenar carne e os pesquisadores encontraram resíduos de gordura animal relativamente bem preservados embutidos em fragmentos porosos não vitrificados. Uma seca extrema causada pelo evento de 8.2-kiloyears teria secado as culturas forrageiras bem como as pastagens e os invernos mais frios teriam aumentado as necessidades de alimentação animal. O efeito combinado teria sido um gado mais magro e mais sedento, e suas gorduras poderiam ter registrado ecos químicos desse estresse dietético, disseram os pesquisadores.

A equipe usou uma técnica conhecida como cromatografia gasosa ligada à espectrometria de massa para identificar os isótopos. Quando os pesquisadores examinaram os isótopos de hidrogênio nos depósitos de gordura, algo interessante foi notado: nos vasos que datam de cerca de 8200 anos, e apenas nesses vasos, o rácio do isótopo deutério, ou hidrogênio pesado, aumentou cerca de 9% em comparação com os outros isótopos de hidrogênio das amostras.

Pesquisas anteriores sobre o clima e a química das plantas na região revelaram que taxas de precipitação mais baixas se correlacionam com proporções mais altas de hidrogênio pesado e, portanto, que o gado teria se alimentado durante uma seca.

A assinatura isotópica foi, portanto, provavelmente causada pelo evento de 8.2-kiloyears, relatam os pesquisadores nos Anais da Academia Nacional de Ciências (Proceedings of National Academy of Sciences), primeira evidência arqueológica direta deste fenômeno. Ao analisar outros lugares em todo o mundo, os cientistas poderão pela primeira vez recriar as condições climáticas exatas de outras sociedades antigas.

"Acho que isso pode ser uma ferramenta muito útil", diz David Orton, zoo-arqueólogo da Universidade de York, no Reino Unido. "É um grande passo em frente"

Outras descobertas em Çatalhöyük revelam como os agricultores se adaptaram a condições mais frias e secas. Os ossos de animais dessa época têm um número relativamente alto de marcas de corte, sugerindo que foram consumidos até a última peça comestível. Rebanhos do gado diminuíram, enquanto os rebanhos de cabras aumentaram, observam os autores, talvez porque as cabras poderiam suportar melhor a seca. A arquitetura do Çatalhöyük também mudou, as grandes casas comunitárias icônicas do local dando lugar a pequenas casas para famílias individuais, refletindo uma mudança no sentido de famílias independentes e autônomos.

Embora essas mudanças ressaltem a resiliência histórica dos seres humanos a condições caprichosas, elas também mostram que mesmo mudanças climáticas relativamente pequenas podem alterar fundamentalmente uma sociedade, diz Evershed.

No entanto Orton acrescenta que a arquitetura do Çatalhöyük tinha evoluida gradualmente ao longo de centenas de anos antes dos acontecimentos de 8,2 quiloyears, o que torna difícil determinar a parte ligada à mudança climática. "Parece que Çatalhöyük já estava em uma mudança bastante rápida bem antes do evento de 8.2. Embora a mudança climática provavelmente tenha alimentado e talvez acelerado essas mudanças, certamente isso não é de modo nenhum o fim da história. "

Ler em contexto

Ultimas noticias

Algumas noticias recentes sobre a categoria pre-historia publicadas no site.

Doggerland, o território engolido há 8.000 anos sob o Mar do Norte
7 de agosto de 2018

Doggerland, o território engolido há 8.000 anos sob o Mar do Norte

Milhares de anos atrás, a Inglaterra estava ligada ao continente por uma faixa de terra. Embaixo d'água, esse território habitado entrega hoje seus segredos. Dezoito mil anos atrás, o rio Tâmisa era um afluente do Reno, para seguir depois o curso do meio do atual Canal e se lançar ao Atlântico …

Os ossos encontrados em Stonehenge pertenciam ao povo do País de Gales
5 de agosto de 2018

Os ossos encontrados em Stonehenge pertenciam ao povo do País de Gales

Testes mostram que restos de 5.000 anos encontrados no local do Patrimônio Mundial da Humanidade vinham de mais de 100 milhas de distância, do oeste do País de Gales. Os ossos das pessoas enterradas em Stonehenge, incineradas há cerca de 5000 anos atrás, chegaram a entregar seus segredos …

3 de agosto de 2018

Guerra Mundial, seca... o mistério do colapso da Idade do Bronze

Guerra Mundial, seca... o mistério do colapso da Idade do Bronze

Piratas, invasões, rebeliões e queda de impérios: no final da Idade do Bronze, a orla mediterrânica mergulhou no caos. Por quê?

Hordas devastando cidades, povos deslocados, reinos vacilantes, frotas piratas... A gente poderia acreditar que isso corresponde à época das invasões bárbaras, após a queda do Império Romano do Ocidente. No entanto, essas cenas acontecem 3.200 anos atrás, no final da Idade do Bronze, um período conturbado do qual ainda não perfuramos todos os mistérios.

Imagine o mundo em 1250 aC. Do antigo Egito para a Anatólia hitita passando pela Mesopotâmia, o leste do Mediterrâneo é um dos três grandes centros da civilização (com o Vale do Indo e do Rio Amarelo) …