História genética: em busca das raízes africanas das comunidades "Marrons"

Por ND, 28 de fevereiro de 2018, referindo-se ao artigo do 02/11/17 para http://www2.cnrs.fr/

Fortaleza Saint Georges de la Mine (Gana), local de reunião dos escravos antes da grande partida (Patrimônio Mundial UNESCO, 1979).

Fortaleza Saint Georges de la Mine (Gana), local de reunião dos escravos antes da grande partida (Patrimônio Mundial UNESCO, 1979) / © Cesar Fortes-Lima

Novos dados genéticos ajudam a restaurar as ligações quebradas pelo comércio triangular e pela escravidão entre as duas margens do Atlântico.

Pesquisadores do laboratório de antropologia molecular e imagens de síntese (CNRS / Universidade Toulouse III - Paul Sabatier / Universidade Paris Descartes) e o laboratório de Eco-antropologia e etnobiologia (CNRS / MNHN) destacaram a excepcional conservação (até 98%) do legado africano nas comunidades africanas "marrons", compostas de Africanos que escaparam da escravidão há mais de quatro séculos na América do Sul. Uma conservação do patrimônio genético que não se encontra em afrodescendentes do Brasil e da Colômbia, por exemplo. Este estudo foi publicado na revista American Journal of Human Genetics em 2 de novembro de 2017.

Entre 1526 e 1875, cerca de sete milhões de Africanos foram arrancados de suas terras para serem escravizados na América do Sul. No entanto, embora os arquivos históricos permitam que uma série de dados geográficos sejam reunidos sobre a origem das várias comunidades afro-americanas atuais, continua a ser difícil determinar com precisão suas origens ancestrales. Assim, os pesquisadores realizaram estudos genômicas para reconstruir o passado das populações afrodescendentes da Colômbia, do Brasil, da Guiana Francesa e do Suriname. Eles analisaram 4,3 milhões de marcadores genéticos em mais de 230 pessoas na América do Sul e na África Ocidental.

A população "marron" é descendente direta de Africanos que escaparam da escravidão. É composta por comunidades independentes de pessoas livres atualmente residentes em certas áreas da Guiana Francesa e do Suriname. Ao comparar o seu genoma com o dos Africanos que vivem atualmente em várias regiões da África Ocidental, os pesquisadores conseguiram destacar um componente africano em 98%. Os "Marrons" mantiveram assim a sua herança africana desde a formação destas comunidades há cerca de quatro séculos. Pelo contrário, os genomas dos afrodescendentes da Colômbia e do Brasil revelam uma mistura genética muito maior (cerca de 25% de genes não africanos), com predominância de ascendência paterna europeia, o que coincide com a chegada dos colonos nestas partes da América.

Este estudo também descobriu quais populações atuais em África têm maior proximidade genética com esses afrodescendentes. Por exemplo, os pesquisadores encontraram entre os "Marrons" e a população afrocolombiana vínculos estreitos com as populações africanas do Gana, Benin e Nigéria Ocidental, enquanto que para a população afro-brasileira, a proximidade parece ser mais forte com as populações de Angola, o que é consistente com as fontes históricas.

Além de completar os bancos de dados existentes sobre as populações africanas, esses novos achados descrevem a história genética recente das populações afrodescendentes e ilustram um capítulo sombrio da história humana: o tráfico de escravos transatlânticos. Os pesquisadores agora desejam ampliar esse trabalho para mais populações na América e na África, para fornecer informações detalhadas sobre o passado desses escravos africanos.

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