Nosso ancestral Homo sapiens não vem de uma única população africana

Tradução de Nicolas Drouvot, 29 de novembro de 2018, referindo-se à noticia de Vincent Bordenave (25/09/18) no site http://www.lefigaro.fr

A grande aventura do homo sapiens

A grande aventura do homo sapiens

Antes que o Homo sapiens prevalecesse sobre as outras populações, a humanidade era extremamente diversa e assumia a forma de um arbusto.

"Antes que o Homo sapiens prevalecesse sobre as outras populações, a humanidade era extremamente diversa e assumia a forma de um arbusto."

Nossos ancestrais teriam evoluído a partir de populações dispersas por toda a África e não de um único grupo pequeno localizado como havíamos pensado no passado.

Até cerca de dez anos atrás, uma teoria popular afirmava que nossos ancestrais diretos eram descendentes de uma única população da África. Várias hipóteses conflitavam para situar o berço da humanidade ou na África do Sul ou no Vale do Rift na África do Leste. Como sempre, a história provavelmente seria um pouco mais complexa do que isso. Em um artigo publicado em julho de 2018 na revista Trends in Ecology and Evolution, uma equipe multidisciplinar liderada por Eleanor Scerri, da Universidade de Oxford, argumenta que as populações que deram à luz aos humanos modernos foram de fato divididas em vários grupos com uma diversidade cultural e física muito marcada. Estes últimos teriam se misturado várias vezes antes de fazer uma decisiva saída para fora da África há 150 mil anos.

"Estamos diante de uma peça de teatro de que conhecemos a primeira cena (várias espécies humanas conviveram entre elas, NDLR) e a última cena (todos pertencemos hoje à uma mesma espécie, NDLR)", diz Francesco d'Errico, diretor de pesquisa no laboratório Pacea (CNRS / Universidade de Bordeaux) e coautor da publicação. "Todo o resto deve ser entendido a partir de descobertas que ainda precisam ser feitas".

Centenas de milhares de anos atrás, antes do aparecimento do homem moderno, o gênero humano era múltiplo e várias espécies de hominíneos povoavam a superfície do globo. Uma primeira população saiu da África, há pelo menos 1,5 milhão de anos atrás. Isto foi seguido por várias outras ondas de migração, até a saída de nossos ancestrais, cerca de 150.000 anos atrás. Estes últimos então se espalharam por toda a superfície do globo, suplantando todas as populações anteriores. "As análises genéticas mostram muito claramente que esse padrão é irrefutável", reage Céline Bom, paleo-geneticista no Museu do Homem.

A publicação de Eleanor Scerri permite reunir várias descobertas recentes em um mesmo quadro global. Em 2016, foram encontrados no Marrocos os restos mortais de uma população Homo sapiens de 300.000 anos de idade. Há alguns meses, um artigo na revista Science, do qual Francesco d'Errico também era coautor, mostrou a existência de populações com comportamento moderno ao mesmo tempo na bacia de Olorgesailie no Quênia, na África do Leste. "Ha menos de 500 mil anos atrás, os hominíneos começaram a se modernizar na África em diferentes pontos", diz Francesco d'Errico. "Essas populações podem ter sido interconectadas, mas as ligações permaneceram muito frágeis e sensíveis às mudanças climáticas, à baixa taxa reprodutiva e ao pequeno tamanho dos grupos".

Essa conexão parece intrínseca à história humana. Nossa diversidade genética é, portanto, extremamente baixa em comparação com outras. Existem mais diferenças entre dois grupos de chimpanzés do que entre os mais distantes dos seres humanos. "Nossa espécie é muito jovem, apenas algumas centenas de milhares de anos", diz Céline Bon. "Nenhuma população se viu isolada por tempo suficiente para se diferenciar. Há até evidências genéticas de que populações europeias retornaram ao continente africano há apenas 5000 anos! "

Antes que o Homo sapiens prevalecesse sobre as outras populações, a humanidade era extremamente diversa e assumia a forma de um arbusto. Diferentes espécies conviveram juntas e até hibridizaram umas com as outras. Há uma boa chance de que algumas dessas espécies ainda sejam desconhecidas para nós. "É um elemento que torna complicado nosso entendimento do período", explica Céline Bon. "A definição de uma espécie é diferente dependendo se é genética ou paleontológica". O que vemos como duas espécies morfologicamente distintas podem na verdade ser a mesma espécie geneticamente. Populações mais ou menos distantes ou em processo de especiação geralmente permanecem fecundas entre elas.

No final, o desenvolvimento de uma rede de conexões entre diferentes indivíduos contribuiu gradualmente para reduzir as diferenças. "Houve um gargalo quando nossos ancestrais diretos saíram da África", diz Céline Bon. "Encontramos esse estreitamento na diversidade genética de todas as populações fora da África. Por outro lado, as populações africanas mantiveram uma riqueza e diversidade genética muito maior. Isto mostra que elas eram indubitavelmente mais numerosas e mais diversificadas neste continente do que pensávamos. "

Quanto à questão de saber como as populações têm gradualmente desaparecido em favor de nossa própria, que os temos substituídos ou exterminados, o debate continua e a resposta provavelmente é diferente para cada uma delas.

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