O que revela a autópsia de Ricardo III

De Nicolas Drouvot, 29 de agosto de 2018, referindo-se à noticia de Le Monde (17/09/14) no site https://www.lemonde.fr
bem como à noticia de Le Monde (21/08/14) no site https://www.lemonde.fr e aquela de Sarah Knapton (28/08/18) no site https://www.telegraph.co.uk

A reconstrução do rosto de Ricardo III

A reconstrução do rosto de Ricardo III / AFP - LEON NEAL.

O esqueleto de Ricardo III foi descoberto em baixo de um estacionamento de carros em Leicester.

O esqueleto de Ricardo III foi descoberto em baixo de um estacionamento de carros em Leicester. Crédito: EPA.

Sua escoliose tinha deformado significativamente sua coluna, dando ao rei uma postura incomum, não curvada, mas assimétrica, com um ombro mais alto que o outro..

"Sua escoliose tinha deformado significativamente sua coluna, dando ao rei uma postura incomum, não curvada, mas assimétrica, com um ombro mais alto que o outro."

Benedict Cumberbatch como Ricardo III em The Hollow Crown.

Benedict Cumberbatch como Ricardo III em The Hollow Crown / Crédito: Robert Viglasky BBC.

A área total coberta pelo projeto para construir uma pista de teste de 155mph para carros sem motoristas próximo ao Centro de Testes de Veículos ja existente em Higham-on-the-Hill.

A área total coberta pelo projeto para construir uma pista de teste de 155mph para carros sem motoristas próximo ao Centro de Testes de Veículos já existente em Higham-on-the-Hill.

Bosworth Field.

Bosworth Field. "O desenvolvimento transformaria definitivamente uma paisagem histórica única" (Dr. Glenn Foard). Crédito: david martyn hughes / Alamy.

Click!Ricardo III foi morto em 22 de agosto de 1485 pelas pancadas de muitos assaltantes, que teriam perfurado seu crânio enquanto ele estava no chão não usando mais capacete, sugere um estudo científico.

Após a descoberta inesperada de seus ossos em 2012, cinco séculos após sua morte, durante trabalhos sob um estacionamento municipal em Leicester, as análises de DNA primeiro confirmaram que esse esqueleto de um homem magro, com a coluna encurvada por causa de escoliose, cujo crânio tinha traços de ferimento, era de fato o do rei, que caiu no campo de batalha não muito longe dali e foi secretamente enterrado por frades franciscanos.

Os exames do esqueleto dão muita informação sobre a pessoa e a morte de Ricardo. Sua escoliose tinha deformado significativamente sua coluna, dando ao rei uma postura incomum, não curvada, mas assimétrica, com um ombro mais alto que o outro. A análise da mandíbula revelou que Ricardo havia perdido vários molares antes de morrer, provavelmente por causa de cáries.

O homem morreu de muitos ferimentos na cabeça, mas nenhum foi causado em seu próprio rosto, permitindo que os cientistas reconstruíssem esse rosto que nenhum retrato contemporâneo representou.

Cientistas britânicos examinaram minuciosamente as feridas sofridas por Ricardo III, o último rei da Inglaterra morto no campo de batalha de Bosworth em 22 de agosto de 1485, após um breve reinado de dois anos.

Ricardo III pereceu sob os golpes de seus atacantes, que teriam perfurado seu crânio enquanto ele estava no chão e não usando mais um capacete, sugere um estudo científico. As feridas na cabeça sustentam os relatos da época em que Ricardo III, preso em um atoleiro, teria abandonado seu cavalo antes de ser morto por seus inimigos, de acordo com um estudo baseado na análise de seus ossos.

A equipe multidisciplinar da Universidade de Leicester, liderada por Jo Appleby, especializada em estuda de ossos, usou técnicas de imagem médica, incluindo tomografia computadorizada para estudar os restos do soberano. Os pesquisadores registraram nada menos que nove ferimentos na cabeça supostamente causados por várias armas possíveis (espadas, alabardas, facas, punhais...). Uma grande lesão pélvica poderia ter sido infligida a ele após sua morte.

"As lesões ao crânio sugerem que ele não estava usando um capacete", ou porque ele tinha perdido, ou porque ele tinha sido removido pela força, diz Sarah Hainsworth, professor de engenharia de materiais e um dos autores do estudo. No entanto, Ricardo III ainda tinha armadura para proteger o resto do corpo, porque não há evidências de lesões no braço e na mão, diz ela. "As duas feridas que provavelmente causaram a morte do rei são aquelas na parte inferior do crânio", diz Guy Rutty, patologista da Universidade de Leicester. Um poderia ter sido infligido por uma arma com uma lâmina larga, como uma espada ou uma alabarda. O outro, muito profundo, teria sido causado pela ponta de uma espada ou pela ponta de uma alabarda, acrescenta ele.

As feridas corroboram a ideia de que o rei deveria estar no chão, talvez em posição de joelhos com o chefe inclinado. A cabeça tinha que ser inclinada para frente para expor a base do crânio, observa o estudo. "As feridas na cabeça de Ricardo corroboram com os relatos da batalha que sugerem que ele abandonou seu cavalo depois de ser pego em um atoleiro e que ele foi morto lutando contra seus inimigos", diz Rutty.

A dinastia Tudor que se seguiu apresentou-o como um tirano sanguinário, uma reputação sombria imortalizada por William Shakespeare. Na peça Ricardo III (cerca de 1592), o soberano encurralado no campo de batalha exclama "Um cavalo! Meu reino por um cavalo! ", uma réplica ficando famosa.

Porém, um outro aspecto de sua personalidade também foi descoberto pelos cientistas do British Geological Survey, em parceria com a Universidade de Leicester: um gosto imoderado por banquetes. Pelo menos durante os dois anos em que foi rei da Inglaterra, entre seus 30 e 32 anos, isto é, desde 1483 até sua morte, em 1485, durante a batalha de Bosworth.

Para essas novas análises, os cientistas tiveram como alvo quatro partes do esqueleto específicas: dois dentes (um molar e um pré-molar) e dois ossos (um fêmur e uma costela). Uma escolha que permite dar informações sobre os diferentes períodos de sua vida e compará-las, uma abordagem, baseada em isótopos de carbono e nitrogênio, ainda bastante rara. O pré-molar fornece indicações sobre sua infância, o molar no começo de sua adolescência, o fêmur em toda a sua vida e a costela em seus últimos anos. "Nosso corpo transforma a comida que comemos e as bebidas que bebemos. Esses alimentos deixam assinaturas em nossos dentes e ossos ", disse Angela Lamb, que liderou o estudo.

Ricardo III, sendo o filho mais novo de Ricardo Plantagenet, o duque de York, isto é, seu décimo segundo filho, era infinitamente improvável que ele se tornasse rei um dia, o que explica por que sua vida era em geral não muito bem documentada. Os cientistas foram capazes de determinar que com a idade de 7-8, o jovem Ricarco deixou o leste da Inglaterra. Informações que corroboram os dados históricos, já que ele teria nascido no Castelo de Fotheringhay, não muito longe de Leicester. A mudança acentuada na dieta por volta dos sete anos indica que ele se mudou para o oeste do país, mais úmido, possivelmente no Castelo de Ludlow (uma das hipóteses históricas), perto do País de Gales, antes de retornar em direção a um clima mais temperado alguns anos depois.

O estudo finalmente observa uma mudança significativa na taxa de nitrogênio no final de sua vida. "Isso pode ser explicado pelo aumento no consumo de alimentos de luxo, como aves de caça e peixes de água doce", diz o relatório. Registros históricos indicam que durante a celebração da coroação, a mesa estava cheia de jovens cisnes, grous, garças e gaivotas. Podemos, portanto, assumir que ele começou a gostar de seu novo estilo de vida.

A mesma dedução é feita sobre sua bebida: "Os isótopos de oxigênio também aumentam no final de sua vida, e como sabemos que ele não se moveu naquele momento, sugerimos que essas mudanças poderiam ter ocorrido como resultado de um aumento no consumo de vinho ", diz o estudo.

"A análise química de seus ossos revela que seu gosto pela festa em seus últimos anos de vida deixou vestígios em seu corpo", resume Angela Lamb, acrescentando que "a dieta de Ricardo quando ele se tornou rei" era muito mais rica do que qualquer outra pessoa de nível equivalente no final da Idade Média ".

Ricardo III, que morreu aos trinta e dois anos de idade após um breve reinado de dois anos, era muitas vezes retratado como um tirano sanguinário, uma reputação imortalizada por William Shakespeare em sua obra Ricardo III, que retrata a ascensão e a queda brutal deste monarca no final da guerra das Duas Rosas, em 1485, quando a dinastia Plantageneta deu lugar à dos Tudors.

Em maio de 2015, o Supremo Tribunal de Londres deu luz verde ao enterro de Ricardo III em Leicester, terminando uma batalha engajada pelos descendentes do rei que exigiram que ele fosse enterrado em York (Norte).

Ricardo III foi reenterrado em 26 de março de 2015 na Catedral de Leicester. Mas os tormentos de Ricardo III ainda não acabaram!

Ele já sofreu com a indignidade de ser enterrado sob um estacionamento em Leicester, mas agora seu último campo de batalha também pode ser danificado, devido a planos de desenvolvimento controversos.

Uma feroz batalha começou no histórico campo de batalha de Bosworth sobre os planos de transformar parte do local histórico em uma pista de testes de 155 mi / h para carros sem motoristas.

Parte do lugar é de propriedade da especialista em automóveis japonesa Horiba Mira Ltd., que pediu ao conselho municipal de Hinkley e Bosworth para construir um circuito de £ 26 milhões para testar veículos autônomos. A nova pista seria construída em 83 acres de terra ao lado do centro de testes de veículos ja existente em Higham-on-the-Hill, perto de Hinckley, em Leicestershire. A empresa diz que as novas instalações vão criar 1.800 empregos e permitir que empresas de todo o mundo testem carros sem motoristas.

Porém historiadores dizem que se o circuito for aprovado, ele destruirá uma área importante e bloqueará a visão de onde Henrique Tudor viu pela primeira vez o exército de Ricardo III. Pesquisas arqueológicas recentes no local mostraram que restos da batalha ainda estão no solo, assim como outros restos da Guerra Civil Inglesa.

Dr. Glenn Foard, da Universidade de Huddersfield, que passou 14 anos fazendo pesquisas sobre Bosworth e cujas descobertas levaram a redesenhar os perímetros do campo de batalha histórico, disse que o desenvolvimento transformaria definitivamente uma paisagem histórica única.

Também Michael Wood, presidente de The Battlefields Trust, acrescentou: "Esta é uma ameaça importante e totalmente inesperada. Esperamos que, mesmo a esta hora tardia, qualquer decisão possa ser adiada até que seja realizada uma consulta de especialistas sobre toda a importância desta paisagem histórica. "

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