Os ossos de 300 guerreiros vikings descobertos na Inglaterra

Por ND, 5 de fevereiro de 2018, referindo-se ao artigo de Sarah Gibbens (5/02/18) para http://www.nationalgeographic.fr/
bem como ao artigo de Jean-Paul Fritz (2/02/18) para https://www.nouvelobs.com/

Os especialistas já dizem que é a joia mais antiga do mundo desse tipo, feita por um ramo dos primeiros humanos conhecido como os Homens de Denisova

Foto tirada em 1982 mostrando o tumulo coletivo / Foto: Martin Biddle.

Feito de clorito, a pulseira foi encontrada na mesma camada estratigráfica que os restos fósseis dos homens de Denisova

Os ossos pertenciam por 80% a homens adultos / Foto: Martin Biddle.

No final do ano 865, os Vikings, principalmente dinamarqueses, desembarcaram no que era então a Anglia Oriental, um dos reinos anglo-saxões no Leste da Inglaterra de hoje.

Desta vez, não é uma expedição de pilhagem como foi o caso desde o final do século anterior. Os Vikings são numerosos, eles vieram para ficar.

As crônicas anglo-saxônicas descrevem essa força de invasão: o Grande Exército Pagão. Nós não sabemos quantos eles eram, provavelmente alguns milhares, liderados por vários senhores de guerra.

O Grande Exército Pagão se envolverá em uma guerra de conquistas dentro dos reinos da Inglaterra. No inverno, os Vikings se retiram em campos fortificados e retomam as suas campanhas na primavera. Depois de várias batalhas e negociações, eles finalmente conquistam uma grande parte do Leste do país, até Londres.

Essas posses vikings serão então conhecidas como o Danelaw, literalmente "a lei dos Dinamarqueses", o país onde a lei anglo-saxã cedeu à lei nórdica. O nome durará até a unificação da Inglaterra por um descendente dos Vikings: Guilherme, o Conquistador.

Durante anos, os arqueólogos ficaram perplexos. O que aconteceu com o Grande Exército Viking, que tinha conquistado grandes partes da Inglaterra no século IX antes de desaparecer sem deixar vestígios? Ossos descobertos recentemente no o que parece uma sepultura coletiva poderia lançar nova luz sobre esta invasão viking da Inglaterra.

Um grupo de arqueólogos acabou de trazer um novo elemento de resposta a esse mistério histórico anunciando a descoberta de um túmulo coletivo que poderia conter mais de 300 guerreiros vikings - os únicos vestígios dos guerreiros vikings do Grande Exército já desenterrados.

Os arqueólogos descobriram o sítio funerário na década de 1980 em Derbyshire, na Inglaterra, e depois especularam que poderia ser restos deste Grande Exército Viking também conhecido como o "Grande Exército dinamarquês". Porém, as datações de carbono 14 revelaram nesse caso que os ossos eram antigos demais para serem os de invasores vikings.

Acredita-se que o Grande Exército tenha passado os invernos de 873 e 874 d.C. em Derbyshire, mas as análises iniciais dos esqueletos datavam os restos dos séculos VII e VIII.

Agora, um novo estudo publicado no jornal Antiquity avança a hipótese de que as datas de ocupação estimadas antigamente eram incorretas e que os restos humanos encontrados poderiam bem pertencer a membros do Grande Exército.

É óbvio que os Vikings, por sua presença, marcaram a história da Inglaterra. Um dos sinais da influência escandinava é a existência de nomes de cidades que terminam em "by", derivadas da palavra escandinava que significa "aldeia". A presença do Grande Exército também foi documentada na Crônica Anglo-Saxão, como o lembrou o principal autor do estudo, Catrine Jarman, da Universidade de Bristol.

De acordo com este livro, centenas de navios Viking trouxeram o Grande Exército para a costa leste da Inglaterra em 865. Os Vikings então conquistaram regiões inteiras do Reino da Inglaterra.

"Este é um dos maiores mistérios da nossa história", explica Catrine Jarman. "Sabemos que milhares de pessoas nos invadiram, mas temos poucas evidências físicas de sua passagem. "

O novo estudo permite resolver a questão da datação dos esqueletos graça a um detalhe crucial: os Vikings, que perambularam pelos mares, se alimentavam principalmente com frutos do mar. Esses esqueletos também, como o mostra a datação pelo carbono.

Quando os cientistas datam ossos humanos, eles usam de um método de datação radiométrica baseado na medição da atividade radiológica do carbono 14, contida na matéria orgânica cuja desejamos conhecer a idade absoluta. Esta forma de carbono diminui ao longo do tempo, então seu nível é um bom indicador do tempo decorrido desde a formação do osso. No entanto, as pessoas que consomem muitos frutos do mar e peixes apresentam o que Catrine Jarman chama de "efeitos do reservatório marinho".

"Se você come peixe muito regularmente, algum carbono que será encontrado em você virá dos oceanos. Alguns desses Vikings consumiram muitos peixes, o que distorce a datação pelo carbono 14".

Por exemplo, Catrine Jarman observa que, se um Viking matasse um peixe e uma ovelha no mesmo dia, a datação em carbono resultaria em que o peixe teria sido matado 400 anos mais cedo do que a ovelha.

Para determinar até que ponto a dieta viking pode ter falsificado a primeira datação por carbono, os pesquisadores realizaram uma primeira análise química de 17 indivíduos encontrados em locais diferentes na fossa coletiva, bem como ossos de ovelhas encontrados no sítio.

Catrine Jarman é capaz de confirmar que quase todos os ossos descobertos datam bem do final do século IX, reforçando a tese de que guerreiros do Grande Exército poderiam bem ser enterrados neste sítio.

"Isso é o que as escavações arqueológicas pareciam provar desde o início", diz Jarman.

Isso corresponde à passagem do Grande Exército Pagão, que estabeleceu sua base de Inverno em Repton em 873 conquistando o reino de Mercia. Os ossos seriam os de falecidos Vikings do Grande Exército.

O túmulo era originalmente um edifício anglo-saxão, provavelmente um mausoléu real, que foi parcialmente destruído antes de ser convertido em uma câmara funerária. Em um dos quartos, os arqueólogos encontraram os restos de pelo menos 264 pessoas... 20% deles eram ossos de mulheres.

Alguns ossos apresentam sinais óbvios de lesão, indicando uma morte violenta. Juntamente com os ossos, eles também descobriram facas e machados e outros objetos, incluindo moedas de prata datadas dos anos 872-875.

Fora desse túmulo, os arqueólogos encontraram um outro túmulo com que as novas medidas de datações se conectam ao primeiro: quatro crianças com idade entre 8 e 18 anos, enterradas juntas com um maxilar de ovelha aos seus pés. Segundo os arqueólogos, poderia ser uma sepultura ritual relacionada com os sacrifícios feitos para acompanhar os guerreiros vikings na morte.

Um outro túmulo do mesmo sítio arqueológico e também relacionado ao Grande Exército também reflete os costumes vikings. O mais velho dos dois homens estava na posse de armas e vários itens, incluindo um pingente em forma de martelo de Thor e uma palavra em alfabeto rúnico.

Mais estranho, uma defesa de javali foi colocada entre as suas pernas. Nós também encontramos traços das feridas que causaram a sua morte, incluindo um significativo no fêmur. Os pesquisadores acreditam que as pancadas foram capazes de cortar seu pênis ou testículos, e que a defesa de javali foi colocada lá para "substituir o que ele perdeu" para que ele pudesse aproveitar plenamente as alegrias do Valhalla.

Com as novas datações de carbono 14, Catrine Jarman explica que os arqueólogos não podem estar 100% seguros de que o tumulo coletivo contém os restos de guerreiros do Grande Exército, mas que vários elementos vão nessa direção.

Ela planeja realizar análises de DNA nos ossos para determinar a sua origem étnica.

No entanto, o sítio funerário de Derbyshire não é mais agora o único descoberto que pode ser associado ao Grande Exército Pagão.

No ano passado, é o acampamento de inverno de 872 que foi descoberto perto de Torksey, nas margens do rio Trent. De acordo com o estudo publicado no "Antiquaries Journal", este acampamento hospedou vários milhares de Vikings. Lá eles reparavam os seus barcos, derreteram os objetos de ouro e prata de suas pilhagens para compartilhar os despojos, mas também foram envolvidos em comércio e jogos.

Arqueólogos também descobriram moedas, incluindo cerca de uma centena de moedas árabes de prata que mostram a extensão das rotas comerciais estabelecidas pelos Vikings na época.

"Era mais do que um punhado de guerreiros robustos", diz Dawn Hadley, professora do Departamento de Arqueologia da Universidade de Sheffield, que liderou a pesquisa.

"Era uma base enorme (de pelo menos 55 hectares), maior do que a maioria das cidades do tempo, completa, com comerciantes, famílias, festas e entretenimento".

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