Pinturas rupestres representariam constelações

Tradução de Nicolas Drouvot, 30 de dezembro de 2018, referindo-se à noticia de Xavier Demeersman (8/12/18) no site https://www.futura-sciences.com

A cena do poço em Lascaux seria um memorial para um  violento evento cósmico

A cena do poço em Lascaux seria um memorial para um violento evento cósmico. © Ministério da Cultura, Centro Nacional de Pré-História, Norbert Aujoulat

Estela no templo de Gobekli Tepe

Estela no templo de Gobekli Tepe. © Klaus Schmidt, Göbekli Tepe Archive, German Archaeological Institute, Alex Wang, Klaus-Peter Simon, CC by-sa 3.0

Auroque pintado na sala dos Touros. O grupo de pontos pretos acima do animal corresponderia ao aglomerado dos Plêiades brilhando na constelação do Touro?

Auroque pintado na sala dos Touros. O grupo de pontos pretos acima do animal corresponderia ao aglomerado dos Plêiades brilhando na constelação do Touro? © Ministério da Cultura, Centro Nacional de Pré-História, Norbert Aujoulat

A semelhança é impressionante entre a constelação do Touro - uma das mais antigas conhecidas - no ombro do qual pode ser visto brilhando no céu o aglomerado dos Plêiades - também chamado de Sete Irmãs ou Sete filhas de Atlas - e a pintura de um auroque em Lascaux (veja acima) onde há cinco pontos pretos.... Simples coincidência ou foi a constelação representada?

Deve-se notar que, no céu, Taurus é facilmente reconhecível, seus olhos vermelhos de raiva (Aldebaran) e sua cabeça estendida por longos chifres. E impossível perder de vista as Plêiades que formam um aglomerado de estrelas cintilantes! Um marco óbvio na noite repleta de estrelas. Como eles interpretaram esse grupo de jovens estrelas?

O homem-leão descoberto em Hohlenstein-Stadel

O homem-leão descoberto em Hohlenstein-Stadel. © Ulmer Museum

Click!O significado das belas representações de animais pintadas nas paredes das cavernas de Altamira, Lascaux, Chauvet ou gravadas em Göbekli Tepe, o mais antigo templo conhecido no mundo, permanece muito misterioso.

Dois pesquisadores, que conduziram um importante trabalho de investigação, concluem que elas representam constelações. E acrescentam que nossos ancestrais do Paleolítico Superior praticavam uma astronomia complexa.

Levou tempo para a humanidade contemporânea aceitar que as pinturas que cobrem as paredes da caverna de Altamira, descobertas na Espanha no final do século XIX, foram as obras de seus ancestrais do Paleolítico. E até a segunda metade do século XX, havia muitos que não aceitavam que esses homens que se estabeleceram gradualmente por toda a Europa durante a Idade do Gelo, muitas vezes caricaturados como bárbaros, fossem capazes de tais obras-primas. E, no entanto, as datações demonstraram o contrário. E sim, o Homo sapiens daquela época não era muito diferente do Homo sapiens do século XXI.

Qual o significado dessas pinturas? Por que eles pintaram nesses lugares escuros e difíceis de acessar? Que histórias eles contaram? Foram elas no centro de rituais? Ou eram somente anedotas da caça? Ou era arte para arte? Como interpretar a obra deles quando ainda não sabemos quase nada das suas vidas cotidianas...? Estas são algumas das grandes questões que os paleontólogos, antropólogos e historiadores da arte enfrentam diante dessas pinturas da pré-história.

Os pesquisadores Alistair Coombs, da Universidade de Kent, e Martin Sweatman, da Universidade de Edimburgo, acham que conseguiram decodificar o significado dessas obras de arte: "não é simplesmente representações de animais selvagens. Em vez disso, estes símbolos de animais representam constelações no céu noturno e são usados para marcar datas e eventos, tal como cometas ", argumentam.

Uma interpretação não inteiramente nova, pois há 10 anos atrás, Chantal Jègues-Wolkiewiez decifrou a sala dos touros na sublime caverna de Lascaux como um planetário da pré-história. Além disso, segundo a etno-astrônoma, o local não foi escolhido por acaso, assim como muitos outros que ela posteriormente examinou. Em seu artigo publicado na revista Athens Journal of History, os autores concordam parcialmente com ela à hipótese de que esta prática tinha uma relação com o céu, as constelações, as estações do ano e que era transmitida de geração em geração. E eles até a estendem para a Europa, acrescentando que algumas obras ecoam os eventos cósmicos.

Para a sua investigação, os pesquisadores tiveram o cuidado de comparar a posição das estrelas - simulado com Stellarium e tendo em conta, naturalmente, da precessão dos equinócios - em relação a datações de representações de animais conhecidas encontradas da Turquia para a Alemanha, passando por Espanha e França, durante um período que se estende de 40.000 a 7.500 anos. Das migrações de sapiens na Europa para o início da agricultura e sedentarização.

Eles concluem que as pinturas de Chauvet (cerca de 36.000 anos), Lascaux, Altamira ou, muito mais tarde, as representações descobertas nos templos de Göbekli Tepe e Çatalhöyük, ambos na atual Turquia, têm todas o mesmo significado e testemunham de conhecimento em astronomia muito superior ao que imaginávamos até agora.

Não só os nossos antepassados do Paleolítico tinham marcos no tempo (o ciclo das estações), mas eles também estavam cientes da precessão do equinócio, e isso bem antes do cientista grego Hiparco a quem é atribuído a descoberta deste fenômeno (o eixo de rotação oscila ao longo de um período de 25.900 anos, é por esta razão, por exemplo, que a estrela polar nem sempre é a mesma ao longo dos séculos e que os solstícios e equinócios nem sempre ocorrem dentro das mesmas constelações do zodíaco ...).

Além disso, Alistair Coombs e Martin Sweatman determinaram que essas representações de animais também marcaram eventos espetaculares e brutais, como quedas de cometas. "Esses resultados corroboram a teoria de múltiplos impactos de cometas durante o desenvolvimento humano", escrevem eles. Uma interpretação que Martin Sweatman e seu colega Dimitrios Tsikritsis ja haviam feita em 2017 em um estudo anterior sobre relevos de animais gravados em colunas do mais antigo templo conhecido do mundo, Göbekli Tepe. Este santuário, erigido por volta de 10.950 aC, se referiria, segundo sua interpretação, a uma catástrofe de grande escala de origem cósmica.... Um desastre que teria sido responsável pela mini era glacial do Dryas tardio, ocorrida há 12.500 anos atrás - e que durou cerca de 1.200 anos - e cujos vestígios foram encontrados em núcleos de gelo no Ártico.

E alguns milênios antes, por volta de 15.200 aC, foi um evento similar que teria inspirado a cena do Poço em Lascaux, argumentam os pesquisadores. Aquela cena onde aparece um homem morto, estilizado, rodeado de animais.

Animais? Isto é, naturalmente, uma reminiscência do zodíaco, um termo derivado do grego zôdion que significa "figura animal". Aqueles Gregos que foram muito inspirados da cosmografia dos Babilônios, a mais antiga dos quais permanece um traço escrito. Ainda hoje, algumas das 13 constelações do zodíaco permaneceram animais (os outros foram substituídos), sugerindo uma origem muito antiga, provavelmente anterior aos Mesopotâmicos.

Para os autores, é claro que nossos ancestrais pré-históricos já as haviam identificadas como estando na "estrada do Sol" (vista da Terra, o Sol, a Lua e os planetas brilham alternadamente na frente das constelações do zodíaco). E de acordo com eles, o bisonte da cena do poço em Lascaux poderia ser a constelação de Capricórnio, que marcava então o solstício do verão. E precisamente, foi da sua direção que os Taurides ocorreram neste tempo distante (o radiante dos Taurides é hoje em Touro) após suas reconstruções do céu de Lascaux.

"Ambos [Lascaux e Gobekli Tepe] podem ser considerados memoriais em encontros catastróficos com o enxame meteórico dos Taurides, de acordo com a teoria de Clube e Napier", explicam os dois autores na introdução de seu trabalho científico. Não há dúvida de que grandes pedaços do cometa, que alimentam essa chuva de estrelas cadentes, explodiram violentamente na atmosfera. Um fenômeno que, dependendo do tamanho do fragmento, pode ter causado um "inverno nuclear" há 17.000 anos e também há 12.500 anos atrás. O fenômeno foi repetido e os artistas do Paleolítico, bem como do Neolítico, o teriam encenado.

Finalmente, os dois pesquisadores remontam aos primeiros vestígios da presença do Homo sapiens na Europa, há 40 mil anos. Já naquela época, eles acreditam, os ocupantes da caverna de Hohlenstein-Stadel, que esculpiram um leão antropomorfo, possuíam o conhecimento de uma astronomia complexa, levando em conta a precessão dos equinócios.

Esta pesquisa é fascinante e apoia trabalhos anteriores que ligam a arte rupestre à astronomia. Eles testemunhariam uma longa tradição de observar o céu, que se pode entender, pois era precioso para nossos ancestrais compreender quando chegavam os dias mais frios e quando os bons dias voltavam (no solstício de inverno, havia também a ansiedade de que o Sol nunca voltasse...). E também podemos imaginar até que ponto as noites deviam ser hipnotizantes, resplandecentes de estrelas, na ausência de qualquer poluição luminosa.

As representações de animais também revelariam uma longa genealogia de constelações, algumas das quais, além disso, provavelmente sobreviveram até agora, como o Touro, Câncer, Leão, Escorpião e provavelmente também... a Ursa Maior. A ursa (no feminino bem como no masculino) encontrada em muitas culturas e que poderia simbolizar o renascimento. Porque é nas cavernas que o animal se refugia para passar o inverno, envolvido como uma bola "até o ponto em que podemos imaginá-lo morto pois não parece dar sinal de vida - ao ouvido seu coração deixar de bater -, escreve Jean Rouaud, que faz sua interpretação das pinturas rupestres em 'La splendeur escamotée de frère Cheval', e o urso sai de novo na primavera, fresco, disposto e sempre tão terrível depois de ter esticado [...] ". Para o escritor também, "os afrescos de animais das cavernas decoradas nos dizem a cosmologia do Paleolítico Superior". O urso acordado poderia, assim, evocar um retorno à vida, como o Sol que, após o solstício de inverno, parece renascer (os dias se alongam...). Talvez seja por isso que alguns homens representavam as constelações - e seus marcos nas estações - na barriga da Terra.

[Se você gostou deste artigo, poderá gostar também, desta noticia, sobre a catástrofe que teria sido responsável pela mini era glacial do Dryas tardio, ocorrida há 12.500 anos atrás: Impacto do asteróide há 13.000 anos atrás: novos índices]
[bem como esta noticia, sobre as representações descobertas nos templos de Göbekli Tepe: Uma estela turca revela como a humanidade quase desapareceu]

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