Uma cachoeira de 1,5 km de altura encheu o Mediterrâneo oriental

Traduzido por ND, 10 de abril de 2018, referindo-se ao artigo de Floriane BOYER (09/04/18) para https://www.futura-sciences.com/

O depósito de sedimentos está localizado perto da Sicília

O depósito de sedimentos está localizado perto da Sicília. O mapa (a) é um mapa batimétrico que mostra a profundidade do canal da Sicília e do mar Jônico. O mapa (b) mostra as variações na espessura do depósito, localizado no sopé da Escarpa de Malta em (7) e do Canyon Noto em (8). © Aaron Micallef et al., Scientific Reports, 2018

O depósito sedimentar caótico, denominado Unidade 2, está acima dos sais da crise messiniana (Unidade 3) e abaixo dos sedimentos marinhos do Plioceno-Quaternário (Unidade 1)

O depósito sedimentar caótico, denominado Unidade 2, está acima dos sais da crise messiniana (Unidade 3) e abaixo dos sedimentos marinhos do Plioceno-Quaternário (Unidade 1). Ele, portanto, atesta do reabastecimento do mar Mediterrâneo e do retorno às condições marinhas normais, após um período de secagem de aproximadamente 600.000 anos. © Aaron Micallef et al., Scientific Reports, 2018

Click!As águas tranquilas do Mediterrâneo cobrem as cicatrizes de um passado tumultuoso. Pesquisadores estão gradualmente destacando evidências gravadas no fundo do mar, o que mostra que este mar conheceu, em um tempo distante, uma das piores inundações da história do planeta. As explicações de Marc-André Gutscher, um geólogo que participou da descoberta desse desastre que ocorreu há mais de cinco milhões de anos.

O Mediterrâneo secou. Vastas extensões, anteriormente submersas, expostas ao ar livre entre lagos hipersalinos semelhantes ao Mar Morto. Por mais difícil que seja, essa visão era muito real se voltarmos uns seis milhões de anos atrás.

No final do Mioceno, durante o Messiniano, o Mare Nostrum foi, de fato, o cenário da mais violenta erupção geológica desde a crise cretáceo-terciária. O evento, chamado de crise de salinidade messiniana, causou a evaporação maciça do Mediterrâneo após o fechamento de uma passagem no norte do Marrocos (o atual Estreito de Gibraltar), quebrando a conexão entre o mar e o oceano Atlântico.

Além disso, o limiar entre a Sicília e a Tunísia emergiu, criando uma crista natural separando o Mediterrâneo em duas bacias, a oeste e a leste. "Os geólogos acreditam que o nível do mar caiu de algumas centenas de metros, pelo menos, ou até 1.000 m, no lado oeste, e 2.400 metros no lado leste", diz Marc-André Gutscher.

Como o Mediterrâneo encontrou o aspeto que conhecemos hoje? Uma inundação digna de um filme-catástrofe que anglófonos, não hesitem em chamar de "mega-dilúvio" teria terminado a crise messiniana há 5,2 milhões de anos atrás, no início do Plioceno.

O Estreito de Gibraltar se formou, deixando as águas do Oceano Atlântico reconquistar o Mediterrâneo, começando com a bacia ocidental antes de encher a bacia oriental onde o nível do mar excedeu o limiar da Sicília. O dilúvio foi tão violento que levou apenas dois anos para encher totalmente o mar.

Para reconstruir este cenário, os pesquisadores estão procurando por pistas que atestem a passagem das ondas. E, de fato, uma equipe internacional liderada por Aaron Micallef e Angelo Camerlenghi da Universidade de Malta e do Instituto Nacional de Oceanografia e Geofísica Experimental de Trieste (Itália), descrevem em um artigo publicado na Revista Científica Reports, um estranho depósito de sedimentos descobertos na Sicília. Ele repousa contra a escarpa de Malta, um enorme penhasco submarino.

Esta descoberta é "a primeira evidência direta do enchimento da bacia oriental, revela Marc-André Gutscher, co-autor do estudo. O que é surpreendente é que ele foi encontrado ao pé de um cânion, o canyon de Noto, que tem uma forma particular, em forma de J. É um canyon monstruoso, a cerca de 20 km de comprimento e 6 km de largura, extremamente profundo e calcário, uma rocha dura. Para erodi-lo deste jeito, para formar até declives de 70 °, é preciso muita violência ".

"Este cânion foi cavado por quedas, como as Cataratas do Niágara, mas de maneira muito mais violenta", diz o pesquisador. E em muito maior também: a cachoeira responsável pela inundação da bacia do Mediterrâneo Oriental teria medido 1,5 km de altura. A propósito, as ondas teriam raspado os sedimentos do fundo, que foram depositadas a jusante, no outro lado da escarpa.

O depósito de sedimentos representado pelos pesquisadores é limitado em seu lado ocidental pela escarpa de Malta. Abrange uma área comparável a Creta, com 160 km de comprimento e 95 km de largura. Ele mede entre 400 e 800 m de espessura, que diminui à medida que se avança para o este, ou seja, à medida que a gente se afasta da escarpa.

Chamado Unidade 2, o depósito, agora enterrado sob o fundo do mar, é ensanduichado entre duas camadas sedimentar bem identificadas: situa-se abaixo dos sedimentos que datam do Pliocena-Quaternário (Unidade 1), período geológico que segue o Messiniano, e acima de uma importante camada de sal característica da crise messiniana (unidade 3). De fato, a evaporação do Mar Mediterrâneo foi acompanhada pela formação de depósitos de sal, chamados de evaporitos, com mais de 500 m a 1 km de espessura.

E o que aconteceu no lado do Mediterrâneo ocidental? "Tal depósito caótico não aparece, ou pelo menos não na proximidade do Estreito de Gibraltar", disse Marc-André Gutscher, acrescentando que estudos anteriores, no entanto, identificaram um grande canyon na área.

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