Uma múmia fornece a evidência mais antiga conhecida de prática de embalsamento

Tradução de Nicolas Drouvot, 17 de agosto de 2018, referindo-se à noticia de Maya Wei-Haas no site https://www.nationalgeographic.com

Os pesquisadores muito tempo acharam que as múmias pré-históricas do Egito foram criadas por acidente. Mas evidências crescentes sugerem que as pessoas ajudaram a preservar esses antigos mortos

Os pesquisadores muito tempo acharam que as múmias pré-históricas do Egito foram criadas por acidente. Mas evidências crescentes sugerem que as pessoas ajudaram a preservar esses antigos mortos / Fotografia: cortesia do Museo Egizio.

Datada de cerca de 5.600 anos atrás, a múmia pré-histórica fica delicadamente em posição fetal

Datada de cerca de 5.600 anos atrás, a múmia pré-histórica fica delicadamente em posição fetal / Turin’s Egyptian Museum, Italy. ( CC BY-SA 3.0 ).

O material para análise química foi retirado das ataduras

O material para análise química foi retirado das ataduras. (Imagem: © Fotolia).

A múmia data da pré-história egípcia, antes do período faraônico clássico

A múmia data da pré-história egípcia, antes do período faraônico clássico. (Imagem: © Fotolia).

O bálsamo antecede o auge da mumificação na região de cerca de 2500 anos.

Datada de cerca de 5.600 anos atrás, a múmia pré-histórica fica delicadamente em posição fetal. Embora ela agora jaz em um museu em Turim, na Itália, ela assumiu essa posição vulnerável há milhares de anos no Egito, sua pele tendo sido exposta ao calor das areias quentes perto das margens do Nilo.

A mumificação parecia ter sido o resultado de um processo natural. Mas novas evidências sugerem que a múmia de Turim não foi acidental - e agora os pesquisadores compilaram uma receita detalhada para seu embalsamamento.

A lista de ingredientes representa o mais antigo bálsamo egípcio de embalsamento até agora conhecido, anterior de 2.500 anos do auge de mumificação na região. Mas esta receita inicial é notavelmente semelhante aos bálsamos posteriores de embalsamamento amplamente usados em rituais para ajudar os nobres como o rei Tut a passar para a vida após a morte.

"É muito interessante ver essas ligações", diz Stuart Tyson Smith, arqueólogo da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, que não fazia parte da equipe de estudo. "Isso nos dá uma bela peça da quebra-cabeça que não tínhamos antes."

O estudo, publicado em agosto de 2018 no Journal of Archaeological Science, vem depois de décadas de trabalho árduo em múmias pré-históricas. A coautora do estudo, Jana Jones, egiptóloga da Universidade Macquarie, teve as suas primeiras pistas sobre essa mumificação na década de 1990 enquanto estudava antigas ataduras de uma múmia datando de lá cerca de 6600 anos.

Jones examinou as ataduras sob um microscópio e foi surpreendida: os tecidos pareciam conter restos de resina de embalsamamento, um composto frequentemente observado em múmias posteriores. "Era apenas uma sensação incrível", disse ela.

Mas a evidência microscópica não foi suficiente para dizer se os Egípcios haviam embalsamado seus mortos há milhares de anos antes do esperado. Isso exigiu uma analisa química cuidadosa e foi necessário a Jones e sua equipe 10 anos para concluir a análise. "Foi só por causa da maldição da múmia", diz ela. A equipe finalmente confirmou a descoberta sobre as ataduras em 2014, publicando estes resultados no PLOS ONE (link).

"Foi o momento decisivo", diz Stephen Buckley, um arqueólogo químico e especialista em mumificação, que liderou a análise química para o estudo de 2014 e para este último trabalho.

Mas alguns especialistas permaneceram céticos, diz Jones. Os pesquisadores não tinham provas de uma verdadeira múmia, uma vez que os têxteis tinham sido separados há muito tempo do seu dono preservado. Então eles se voltaram para a múmia de Turim para outras pistas.

A múmia de Turim, ou "Fred", como muitas vezes é carinhosamente conhecida, foi preservada no Museu Egípcio de Turim desde o início de 1900, e não foi tocada por conservantes modernos nem estudada por cientistas.

Os pesquisadores submeteram amostras da múmia a uma bateria de testes, revelando os componentes químicos precisos da velha receita de embalsamento. Eles descobriram que o bálsamo se baseou em óleos vegetais, depois misturado com goma ou açúcares de plantas, resina de coníferas aquecida e extratos de ervas aromáticas. O último par de ingredientes é particularmente importante porque impede o crescimento microbiano.

Os componentes da pasta não só se assemelham àqueles usados milhares de anos mais tarde no Egito, mas eles também têm uma semelhança notável com a textura dos bálsamos que os pesquisadores haviam identificado nas ataduras pré-históricas das múmias.

"Isso definitivamente confirma nossa pesquisa anterior", diz Jones.

As múmias pré-históricas, com suas posições frequentemente fetais e os órgãos ainda dentro de seus corpos, estão longe das múmias clássicas que vêm à mente quando se pensa no Egito. Mas a ideia básica por trás do unguento de embalsamamento permaneceu a mesma.

O bálsamo teria formado "um tipo de pasta marrom pegajosa", diz Jones. As ataduras ou estavam encharcadas antes de embalar ou o embalsamador aplicava a pasta diretamente no corpo. A múmia estava então colocada na areia quente para que uma combinação de sol ardente e bálsamo protetor preservasse o corpo.

Mais tarde, as múmias "clássicas" eram mais frequentemente colocadas em posição deitada e enterradas em túmulos protegidos dos raios do sol. Devido a isso, Buckley explica, os embalsamadores tiveram que tomar medidas adicionais, como remover o cérebro e outros órgãos, bem como dessecar o corpo com um tipo de sal chamado natrão.

O estudo também sugere que as primeiras práticas de embalsamamento foram muito mais prevalentes do que se pensava anteriormente. O embalsamamento analisado no estudo anterior vem de uma parte do Egito localizada a mais de cem quilômetros ao norte da área onde a múmia de Turim foi descoberta.

Então, como os antigos egípcios encontraram a receita há tanto tempo?

"Alguns desses ingredientes podem ter tido um significado simbólico a princípio", Buckley especula. "Mas eles notaram que tinham uma vantagem de conservação." A equipe agora está estudando os primeiros locais de experimentação com ingredientes para embalsamar, diz Buckley, referindo-se a uma futura publicação.

Ronn Wade, diretor aposentado da Divisão de Serviços Anatômicos da Universidade de Maryland, elogiou o rigor do novo estudo. Em 1994, Wade reproduziu o processo de mumificação egípcia em um ser humano moderno com o apoio de uma bolsa da National Geographic.

"Eu gostaria que tivéssemos algumas dessas informações quando estávamos fazendo a nossa múmia", diz ele. "Teria sido interessante."

[Sobre o tema destas antigas múmias egípcias, veja também: As primeiras tatuagens figurativas foram descobertas em duas múmias egípcias com mais de 5.000 anos ]

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